A VIOLÊNCIA EMOCIONAL: sutil, devastadora e silenciosa

 

                                               “O mal é comum, e sempre humano. Divide nossa cama...

 e come em nossa mesa.”

Wystan Hugh Auden (poeta)

 

INTRODUÇÃO

Fala-se muito em violência, e a palavra violência costuma remeter a atos de extrema agressão e torturas físicas. Entretanto, essa palavra possui um espectro, uma representação das amplitudes ou intensidades, muito vastas, podendo ocorrer de maneira subliminar e devastar o psiquismo da vítima até o grau de leva-la a morte.

Esta modalidade de violência é, por vezes, muito difícil de ser observada e combatida. Ela é tão próxima e íntima da vítima, normalmente partindo de familiares, amigos e grupos sociais, provocando grande destruição emocional.

Os relacionamentos disfuncionais estão muitas vezes recheados de conteúdo emocional violento e são vividos dentro de ambientes que, teoricamente implicariam em proteção e segurança: os lares.

Este tipo de violência acaba sendo vivido em silêncio, sob um disfarce dificilmente detectável. Destrutivo sem deixar marcas físicas, passando despercebido dos que convivem com a vítima.

A violência emocional é a forma de violência com a qual nós, psicólogos, nos deparamos diariamente nos consultórios. E, nos pacientes que as relatam observamos que, como consequência, eles continuam muitas vezes, aplicando a si mesmos a mesma violência, perpetuando as dores e sofrimento. Uma via crucis interminável.

É usual atribuir-se à própria vítima a responsabilidade pela violência sofrida. Por essa razão muitos não tomam qualquer atitude, tendem a aceitar sua participação e mantêm seus sofrimentos. A autoestima fica tão prejudicada que a vítima acredita ser merecedora de tudo que está sofrendo – esta é uma das muitas respostas neuróticas da vítima: se sentir responsável pelo que sofre.

A violência é a resposta de uma pessoa profundamente insegura e, que através de comportamentos destrutivos consegue humilhar e inferiorizar a vítima, o que costuma proporcionar ao agressor a sensação de poder, controle e domínio na intimidação da vítima. O agressor acaba por sequestrar a alma da vítima e a mantém em cativeiro sórdido.

São tantas as maneiras de se violentar emocionalmente alguém que não caberiam neste capítulo. Por isso descrever-se-á algumas dessas formas e de suas consequências e desdobramentos.

As formas de violência abordadas neste capítulo estão vinculadas ao abandono, ao descaso, ao descuido, ao desprezo, à ironia e sarcasmo, e, ao assédio moral, vivenciados no lar e na ambiente laborativo

No consultório costumo usar, como técnica − para fazer aflorar sentimentos e emoções − filmes e animações que inspirem o reconhecimento das agressões sofridas e as soluções encontradas pelos personagens. Afinal, fundamentando-me na teoria junguiana, os contos e os mitos demonstram esta finalidade: evidenciar que não se é o único que experimenta algum tipo de vivência e buscar no reservatório maravilhoso do inconsciente as respostas para um drama existencial. E quando um autor escreve sua história ficcional nada mais está fazendo do que escrever sobre o momento histórico de uma cultura, de uma sociedade, de um grupo social.

Então, escolhi três obras cinematográficas para trabalhar sobre violência emocional: “Como treinar o seu dragão”, “Meu malvado favorito” e “O diabo veste Prada”, para discorrerem sobre a violência emocional causada pelas figuras parentais e no ambiente de trabalho.

Esta é a introdução do meu capítulo no livro "A VIOLÊNCIA NA CONTEMPORANEIDADE: O Olhar da Psicologia Junguiana, tendo Sandra Amorim e Marcelo Moreira Neumann por Organizadores. Editora CRV. Julho de 2015.