Os Sofrimentos da Alma

                                              

 

               Segundo Carl Gustav Jung, a neurose, “em última análise, precisa ser compreendida como o sofrimento de uma alma que não descobriu seu significado”.[1] Sendo que a neurose não é um sofrimento autêntico, pois não é uma reação realista às dificuldades mas antes, uma defesa contra os ferimentos da vida e o esforço consciente para curar os ferimentos. Ou seja, os sintomas são manifestações de um desejo de cura. Por isso, faz-se necessário compreender o que significam e não reprimi-los ou eliminá-los.

 

            Então, um dos objetivos da análise é ajudar a atravessar o sofrimento e não removê-lo. Outro de seus objetivos é fazer com que o analisando reconheça a responsabilidade das próprias escolhas e da própria vida.

 

SOBRE A CULPA

 

            “A culpa se senta como um grande pássaro negro nos ombros de quase todos nós. O conceito junguiano de sombra nos faz lembrar de nossa participação no proibido, do nosso egoísmo, narcisismo e covardia.” [2]

            Hollis (1999) ainda nos fala de três tipos diferentes de culpa, a saber:

1.       A culpa como responsabilidade, que é aquela na qual declaro que errei, que reconheço e aceito minhas escolhas. Nenhuma pessoa consciente pode se dizer inocente. Então após reconhecer-se culpado, deve-se buscar uma forma, mesmo que simbólica de recompensar o que foi feito pois só assim atingir-se-á a remissão.

2.       A culpa como defesa contra a angústia: esta não é a verdadeira culpa, mas aquela que advém da ansiedade gerada quando sentimos que não agimos ou falamos de maneira adequada, ou seja, que não fomos agradáveis para com o outro. Isto é comum, por exemplo, quando dizemos “não” para alguém. Isto se deve ao fato de termos sido “condicionados a ser agradáveis em vez de sinceros, flexíveis em vez de autênticos, adaptáveis em vez de fazer valer nossas opiniões”.[3]

3.       A culpa existencial: é aquela que apenas pessoas com certo grau de consciência apresentam e que não há o que fazer. Por exemplo, pode-se sentir culpa por ter sido omisso na preservação da natureza; por comer carne em razão da morte de um ser vivo, mas se nos tornamos vegetarianos também matamos o vegetal. É o tipo de culpa que se tem que aceitar.

 

SOBRE A PERDA DA ALMA ( DOR ) 

 

              A vida começa e termina com “perda”: primeiro, ao nascer, perde-se a segurança do mundo uterino e depois se perde a própria vida, com a morte. Mas entre esses dois marcos, estes dois pontos no tempo – nascimento e morte – ocorrem incontáveis perdas. Perde-se afetos, segurança, status, energia, etc.

            Os maiores sofrimentos humanos advêm da frustração dos desejos, das expectativas e da necessidade que o ego possui de controlar eventos e pessoas.

            Para algo ser sentido como perda, é necessário que antes tenha tido valor em nossa vida. Este valor está além do próprio objeto ou pessoa. Então, mesmo perdendo o objeto, a pessoa ou situação, deve-se incorporar, integrar esse valor, isto é, valorizar o que se internalizou do objeto da perda, valorizar o significado desse objeto dentro de sua própria vida.

            A traição também pode ser experimentada como uma forma de perda, a perda da confiança. E traição e confiança formam um par inseparável. Uma não ocorre sem a outra.

            Desejos de vingança que se seguem a traição demonstram o apego à situação passada, ao próprio passado, impedindo o direcionamento da energia, através da dor, para frente.

            Culpa e traição sempre estão ligadas ao passado, isto é, denotam que a energia não se desvencilhou da situação passada que a gerou.

 

SOBRE A DÚVIDA E A SOLIDÃO

 

            A dúvida é um sentimento precursor do crescimento, de mudança. Mas a pessoa neurótica não consegue tolerar a dúvida – precisa de certezas e garantias. Por isso, vive atormentada pela culpa, pela sensação de fracasso e pelas inadequações.

            A solidão é uma vivência necessária ao crescimento pessoal, a individuação. Deve-se compreender que não existe nada ou ninguém, além de nós mesmos, para preencher o nosso “vazio interno”, que se acentua com as experiências primordiais. 

 

A DEPRESSÃO

 

      A depressão pode ser reativa, que é uma reação normal diante de uma perda ou de um desapontamento, pois implica que a pessoa estava envolvida com aquela realidade exterior.

               A depressão pode ser endógena que deriva de uma base biológica e é transmitida geneticamente.

              É comum a depressão na meia idade pois há um confronto, consciente ou não, entre o falso eu, até então vivido, com o desejo do verdadeiro eu se expressar. A psique usa a depressão para chamar nossa atenção, para mostrar que existe algo profundamente errado. (p.99)

            Tanto a depressão como o desespero são experiências que nos convidam a ir a luta, a sair do papel de vítima e passar para o de herói.

           

OS VÍCIOS

 

            Nossos padrões de vício são defesas contra a angústia quer saibamos ou não. Todos os vícios são, na verdade, técnicas de administrar a ansiedade. (p. 123)

 

A RAIVA

 

            O cão enfurecido – Cérbero – possui três cabeças. Isso pode nos mostrar que existem três tipos de raiva, ou três tipos de ferida que levam a raiva. Uma das formas é quando o ser é constringido em sua espontaneidade natural – expressar a raiva ou a sexualidade sempre foi visto como inadequado. Outra ferida é a resposta insuficiente, a negligência ou o abandono das necessidades da criança pelo ambiente. Um terceiro tipo de ferimento que causa a raiva é a insinuação de que somos de algum modo participantes voluntários desse autoferimento (baixo amor próprio e busca constante de afirmação).

A raiva é uma legítima reação da alma ao seu ferimento. Podemos mantê-la inconsciente precisamente porque sua expressão hoje reativa o perigo que sua manifestação certa vez representou. Podemos voltá-la contra nós somatizando, deprimindo ou danificando a nós mesmos através das nossas decisões contaminadas. Ou podemos transferir essa raiva para os outros, ferindo desse modo àqueles que são os substitutos silenciosos daqueles que não conseguimos enfrentar no passado. (p. 136)

 

O MEDO E A ANSIEDADE

 

            Vamos definir a diferença entre medo, ansiedade e angústia. O medo é específico. A ansiedade é um mal flutuante que pode ser ativado praticamente por qualquer coisa, pode iluminar durante algum tempo uma coisa específica, mas que geralmente tem origem na insegurança genérica que sentimos na vida. A angústia é a ansiedade existencial, ela decorre da nossa frágil condição humana. (p.141)

            Nossa defesa mais primitiva é a familiar opção de “lutar ou fugir”. Geralmente fugimos do que nos esmaga. Aprendemos a nos distanciar das realidades dolorosas. Nós reprimimos, esquecemos, dividimos; projetamos sobre os outros nossos complexos desagradáveis

 

[1] Obras Completas, Vol. XI

[2] Hollis, Os Pantanais da Alma, p.30

[3] Ibid. p.38