O que estou disposto a dar em um relacionamento?

 

          É muito comum ouvirmos as pessoas falarem sobre o que esperam de um relacionamento ou de um parceiro(a), contudo, o que elas esperam dar de si mesmas em um relacionamento? Pouco - ou quase nada - é relatado.

 

          Um relacionamento exige disponibilidade pessoal, afetiva, de tempo e de espaços interno e externo. Se pretende se relacionar, é preciso determinar tempo e espaço para que aconteça o encontro, nada de estar disponível por 24 horas. Será necessário estar aberto para ouvir o outro, para falar de si, para saber do outro, para seus silêncios, para aceitar suas diferenças ou idiossincrasias, caso contrário, as próprias verdades e certezas serão impostas como se fossem as únicas.

 

          É preciso disposição para dar atenção e afeto, e não ficar apenas exigindo tais atributos do outro. Ser autêntico e não vender uma falsa ideia de quem se é, submetendo-se, assim, aos desejos e caprichos do outro como se isso pudesse fazer com que ele nos ame. Temos que dar espaço ao outro: nada de ficar ligando, enviando torpedos ou e-mails e exigindo o mesmo do parceiro durante o dia todo.  

Gibran Khalil Gibran, no livro “O Profeta”, nos fala dos relacionamentos de maneira poética, mas, talvez, com a mais sensata descrição de como deveria ser um relacionamento. Segue abaixo um trecho da obra:  

 

        Então, Almitra falou novamente e disse: “E que nos dizes do matrimônio, mestre?”. E ele respondeu, dizendo: “Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para todo o sempre. Juntos estareis quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias. Sim, juntos estareis até na memória silenciosa de Deus. Mas que haja espaço na vossa junção e que os ventos do céu dancem entre vós. Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão: que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas. Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça. Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho, assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia. Dai vossos corações, mas não os confieis à guarda um do outro. Pois somente a mão da vida pode conter vossos corações. E vivei juntos, mas não vos aconchegueis em demasia, pois as colunas do templo erguem-se separadamente, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.”.

 

        Tem que se ter em mente que um relacionamento faz parte da nossa vida, no entanto, não é a nossa vida. Vivemos vários papéis em nosso dia a dia, como profissional, estudante, mãe/pai, filha(o), namorada(o), marido/esposa, amiga(o), vizinha(o), cliente, entre outros, e todos eles demandam tempo e energia, são todos importantes e partes de nossa vida. Não se pode fazer uma divisão exata da nossa energia para todos esses aspectos, temos que priorizar alguns conforme as circunstâncias, de modo que se possa atuar em todos os segmentos da vida com sucesso e prazer.

 

        Portanto, ao partir para um relacionamento, observe-se e decida sobre o que pretende dar a este relacionamento, e não apenas no que vai exigir dele. Muitas vezes, não estamos prontos para nos relacionarmos, para nos darmos, na medida justa, a alguém.