O ARQUÉTIPO DA SOMBRA NO ROMANCE “O RETRATO DE DORIAN GRAY”

 

Monografia apresentada a USF – Universidade São Francisco, como exigência parcial para a obtenção do título de especialista em Psicologia Analítica. São Paulo, 2000.

 

Quero deixar a todos que se interessarem a oportunidade de ler o meu tema monográfico na íntegra. Deixo, também, um aviso: esta obra está registrada na Fundação Biblioteca Nacional sob o N.º 188.432; Livro 322; Folha 87.

 

INTRODUÇÃO

 

O romance de Oscar Wilde (1854-1900) foi publicado como folhetim a partir de 1890. É uma obra que retrata de maneira muito criativa e simbólica um quadro patológico, no qual a Sombra torna-se o elemento central. É um "retrato" do mal, introjetado, personificado e projetado.

Este trabalho objetiva o estudo e a compreensão do Arquétipo da Sombra normal e patológica e algumas das possíveis conseqüências da sua não integração. Procura mostrar como este romance pode ser útil no procedimento de amplificação (método utilizado por Jung principalmente para a interpretação dos sonhos, associando a imagens universais, envolvendo mitos, história, cultura para ampliar o conteúdo simbólico) dos aspectos sombrios da personalidade durante o trabalho terapêutico.

O Retrato de Dorian Gray revela-se como a Sombra Patológica que não foi integrada e, portanto, inflaciona o Ego, levando o personagem a autodestruição, comprovando que um arquétipo não pode jamais ser destruído, apenas parcialmente integrado (minimizando assim seus efeitos inadaptativos).

A princípio serão apresentados os principais conceitos junguianos pertinentes ao romance em questão. Segue-se um breve resumo do romance, e, posteriormente, este será relacionado com algumas situações cotidianas das vivências psicoterápicas.

 

 

 RELAÇÕES PESSOAIS COM O TEMA

 

Os temas que envolvem o mal, o demoníaco, o terror, o perverso, o patológico sempre me chamaram a atenção. Estes temas possuem algo de mágico e misterioso, causando as mais diversas reações emocionais naqueles que com eles entram em contato.

Recordo-me que, já na idade adulta, assisti a um filme, do qual apenas uma frase, escrita ao final do mesmo, tida como um ditado espanhol, ficou registrada em minha memória: "Que o diabo existe, não tenho a menor dúvida. Só não sei se ele está querendo entrar ou sair de nós!" E, então, a partir dessa frase comecei a me interessar pelos aspectos sombrios da alma humana, e comecei a me aprofundar no estudo da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, na qual encontrei material para analisar e compreender essa faceta do psiquismo.

Em meu trabalho como psicoterapeuta, percebi que é através da integração dos aspectos sombrios que o indivíduo passa a perseguir-se. Em busca de si mesmo ou rumo ao si-mesmo (a totalidade da personalidade), de uma maneira mais firme, segura e contundente, dispersando menos suas energias. Estas, até então, eram drenadas através de sentimentos de culpa, remorso, incompetência, impotência e inferioridade, aspectos esses advindos da não integração dos aspectos sombrios. Sendo assim, muitas vezes, fiz uso desse romance, no sentido de amplificar  alguns conteúdos inconscientes que estavam prestes a emergir, e com isso torná-los mais acessíveis à interpretação. Esse conteúdo inconsciente não provém apenas da Sombra, mas também de outros Arquétipos (vide pág. 6) que se ocultam no Inconsciente Coletivo (camada mais profunda do inconsciente que contém possibilidades herdadas do funcionamento psíquico, na qual são constelados os arquétipos e, portanto é destituído dos conteúdos pessoais, individuais) e que na verdade, são os responsáveis pelos sentimentos recalcados, de menos valia sempre agregados a culpa, vergonha e remorso, a saber, a Ânima e o Ânimus (arquétipos contra-sexuais no homem e na mulher, respectivamente).

Nesse sentido, vejo a Sombra também como uma "ponte" que estabelecerá uma ligação entre o Ego e a Ânima/Ânimus, favorecendo a conscientização de aspectos decisivos em busca do si-mesmo. As vezes um tesouro oculto, não utilizado e sequer reconhecido em sua preciosidade. Talvez o Tempo, o Momento, a Poeira tenham ocultado seu brilho.

Em outros casos, uma pedra preciosa bruta, ainda a lapidar.

 

Capítulo I – CONCEITUAÇÃO

 

            Serão definidos nesta parte os conceitos junguianos mais importantes para este trabalho. Isto em razão de que outros conceitos foram e serão elucidados brevemente no corpo do trabalho.

 

1. ARQUÉTIPOS, SÍMBOLO E FUNÇÃO TRANSCENDENTE

 

Os arquétipos são imagens primordiais, universais, herdadas do passado ancestral do homem, e formam o conteúdo do inconsciente coletivo, e, portanto, são inconscientes.

Segundo Jung (1993, p. 35) "... ¾ os arquétipos ¾ são de certa forma os fundamentos da psique consciente ocultos na profundidade ou usando outra comparação, suas raízes afundadas não só na terra, em sentido estrito, mas no mundo em geral. Os arquétipos são sistemas de prontidão que são ao mesmo tempo imagens e emoções. São hereditários como a estrutura do cérebro. Constituem, por outro lado, um preconceito instintivo muito forte e, por outro lado, são os mais eficientes auxiliares das adaptações instintivas. Propriamente falando, são a parte ctônica da psique ¾ se assim podemos falar ¾ aquela parte através da qual a psique está vinculada à natureza, ou pelo menos em que seus vínculos com a terra e o mundo aparecem claramente. É nestes arquétipos ou imagens primordiais que a influência da terra e de suas leis sobre a psique se manifesta com maior nitidez".

"Arquétipos são imagens primordiais, imagens virtuais, tendências inatas e hereditárias, modelos para a ação ou para determinadas situações de vida (modelos rudimentarmente esboçados), típicos modos de apreensão da realidade, etc." (CARACUSHANSKY, 1997).

"O ponto importante aqui é que a característica principal de um arquétipo e sua universalidade, ou seja, ele produz uma estrutura ou uma forma de energia que parece existir na estrutura psicológica de todos os homens e mulheres, em qualquer lugar. Isso é verdadeiro para a alma, tanto como entidade objetiva quanto como símbolo universal. Isto é parte da nossa herança humana, parte daquilo que nos faz humanos." (Johnson, 1989, p. 41).

Os trabalhos de Jung demonstraram que há um determinado número de imagens, que mais freqüentemente emergem e que podem ser observados em todas as culturas através dos mitos, contos de fadas e lendas. Podemos citar algumas figuras, tais como: o pai, a mãe, o herói, a criança, o mago, a bruxa, o mal, etc. E esses arquétipos podem apresentar-se em sua forma pura ou combinada, por exemplo, a mãe-bruxa.

"Os arquétipos são percebidos em comportamentos externos, especialmente aqueles que se aglomeram em torno de experiências básicas e universais da vida, tais como nascimento, casamento, maternidade, morte e separação. Também se aderem à estrutura da própria psique humana e são observáveis na relação com a vida interior ou psíquica, revelando-se por meio de figuras tais como ÂNIMA, SOMBRA, PERSONA, e outras mais. Teoricamente, poderia existir qualquer número de arquétipos." (SAMUELS, et alli, 1988, p. 38).

Alguns arquétipos possuem uma importância decisiva na formação da personalidade do indivíduo e em seu comportamento, que são a Persona, a Sombra, a Ânima, o Ânimus e o Self.

Os arquétipos possuem uma forte carga de energia. Esta é avassaladora, irresistível, quase hipnótica. Se o Ego está mais vulnerável e o indivíduo com menor nível de consciência, menor a resistência.

 

Por ser exato, o Amor não cabe em si,

Por ser encantado, o Amor revela-se.

Por ser Amor, invade e fim.

                                   Djavan - Pétala

 

Via de regra, os arquétipos se apresentam através dos sonhos e das fantasias, e por isso podem ser observados em produções literárias, que como nos contos de fadas revelam sua existência, manifestação e de que maneira se poderia lidar com os mesmos, positiva ou negativamente.

"O conceito de arquétipo, de Jung, está na tradição das Idéias Platônicas, presentes nas mentes dos deuses, e que servem como modelos para todas as entidades no reino humano." (SAMUELS, et alli, 1988, p. 39).

Os arquétipos não se apresentam diretamente; são como deuses,  e por isso não podem ser encarados frente a frente. Aquele que ousasse encará-los era punido exemplarmente. Portanto, podem ser encontrados apenas indiretamente, ou seja, através dos símbolos que é uma das formas pelas quais eles se apresentam. Eles, também, se revelam através de sintomas ou dos complexos (ver pág. 22).

Os arquétipos buscam nos conteúdos da instância psíquica consciente motivos que possam lhe representar. JACOBI (1986, p. 72) cita Jung: "o inconsciente fornece, por assim dizer, a "forma" arquetípica, que é em si mesma vazia e, por isso, inimaginável. No entanto, da parte do consciente, essa forma logo está sendo preenchida com material imaginado, apresentado e semelhante, tornado perceptível". Portanto, o símbolo seria um elemento de conexão entre o consciente e o inconsciente, um mediador participando de ambos os lados, unindo-os em si, mas sem descaracterizar suas naturezas, e por assim se encaminhar soluciona conflitos.

"Os símbolos são expressões pictóricas cativantes. São retratos indistintos, metafóricos e enigmáticos da realidade psíquica. O conteúdo, isto é, o significado dos símbolos, está longe de ser óbvio; em vez disso, é expresso em termos únicos e individuais, e ao mesmo tempo participam de imagens universais. Quando trabalhados (isto é, recebendo reflexão e articulação), podem ser reconhecidos como aspectos daquelas imagens que controlam, ordenam e dão significado a nossas vidas. Portanto, sua fonte pode ser buscada nos próprios arquétipos que, por meio dos símbolos, encontram uma expressão mais plena." (SAMUELS, et alli, 1988, p.201).

"A essa capacidade da psique de formar símbolos, isto é, de unir pares opostos no símbolo para uma síntese, Jung chama de sua função transcendente, que ele não entende como uma função básica (como o pensar ou o sentir, que são funções do consciente), mas como uma função complexa, composta de várias funções; e "transcendente" não significa para ele uma qualidade metafísica, mas o fato de que, por meio dessa função, se cria uma passagem de um lado para outro." (JACOBI, 1986, p. 91-92).

"Por "função transcendente" não se deve entender algo de misterioso e por assim dizer supra-sensível ou metafísico, mas uma função que, por sua natureza, pode-se comparar com uma função matemática de igual denominação, e é uma função de números reais e imaginários. A função psicológica e "transcendente" resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes." (JUNG, 1984, p. 1). Isto porque raramente o consciente e o inconsciente estão de comum acordo pelo fato do inconsciente agir de modo compensatório em relação ao consciente, e vice-versa.

No processo psicoterápico cabe ao terapeuta desempenhar o papel de função transcendente, ajudando o analisando unir os conteúdos do consciente e inconsciente para adquirir um novo ângulo de percepção, uma nova postura com relação aos seus sentimentos ou se encaminhar para novas ações ou modo de vida.

Para isso pode-se usar associações livres partindo-se da emoção que o analisando está vivenciando ou através de técnicas criativas, sejam elas gráficas, plásticas ou que usem movimentos corporais. a fim de permitir que o inconsciente se manifeste.

A função transcendente procura impedir que o Ego permaneça em uma posição unilateral. Unindo o inconsciente e o consciente e, deixando um símbolo no consciente, proporcionando ao Ego a possibilidade de escolhas e assim redirecionando seu desenvolvimento rumo a Individuação, que é um processo autônomo e inato pelo qual o indivíduo busca se tornar "um", "único", realizando a si mesmo e o Si-mesmo, portanto não é um processo de puro egotismo egoísta, pois transcende o próprio ego.

                                                            

 

2. A SOMBRA

 

            "Jung definiu a Sombra de maneira mais simples, direta e clara, quando disse que esta é "aquilo que ele não queria ser" (JUNG, 1998, p. 128). Nesta simples afirmação estão incluídas as variadas e repetidas referências à sombra como o lado negativo da personalidade, a soma de todas as qualidades desagradáveis que o indivíduo quer esconder, o lado inferior, sem valor, e primitivo da natureza do homem, a "outra pessoa" em um indivíduo, seu próprio lado obscuro. Jung era perfeitamente consciente da realidade do MAL na vida humana." (SAMUELS, et alli, 1988, p. 204).

Para Jung (1986) a Sombra é um arquétipo que reside no Inconsciente Pessoal quando procede das experiências do Ego. Entendemos por Inconsciente Pessoal, a porção do inconsciente que carrega todos os conteúdos das vivências e pensamentos que o indivíduo experimentou, mas não registrou; conteúdos que acabou por reprimir e esquecer, e, disposições instintivas que nunca chegaram a atingir o limiar da consciência. Portanto, se encontra mais próxima da consciência e por isso seus conteúdos podem ser mais facilmente identificados e acessados do que os outros arquétipos, que residem no Inconsciente Coletivo (vide pág. 5). O arquétipo da Sombra também reside no inconsciente coletivo como o "eterno antagonista". A Sombra é constituída de elementos com fortes bases morais, guardando em si os traços obscuros da personalidade com grandiosa carga emocional e possuindo certa autonomia.

"É a imagem de todos os aspectos da personalidade em que nos poderíamos transformar." (HILLMAN, 1981, p.208). Neste sentido, revela um potencial de desenvolvimento (criativo ou destrutivo; normal ou patológico).

A Sombra vai se consolidando paralelamente à formação do Ego, visto que a nossa estruturação egóica tem base cultural, em conceitos de certo e errado, no bem e no mal, luz e escuridão, enfim, sempre atuando com conceitos bipolares. Os valores familiares vão, desde tenra infância, buscando desenvolver a Persona (vide pág. 19) e uma auto-imagem do Ego. Os elementos desvalorizados, negados ou reprimidos pela família também não são aceitos na jovem criança. Assim, não deixam de existir apenas são inconscientes.

"O mau, o errado, os desafetos, recaem então sobre a sombra, tornando-a amedrontadora. Em pouco tempo, o lado suprimido torna-se o lado reprimido: o arquétipo da sombra, que é um potencial de valores destrutivos, a um "instinto do mal", é ativado pelos impulsos rejeitados da vida diária. Quanto mais adequado me torno, mais a sombra se alimenta de motivações contrárias, até chegar aos extremos de um Dr. Jekill e Mr. Hyde. Como a sombra é uma figura arquetípica, e não apenas um nome para disfarçar o reprimido, temos de considerá-la como uma personalidade viva, com intenções, sentimentos e idéias." (HILLMAN, 1981).

No conto de Stevenson, "O Estranho caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde", encontra-se uma cisão entre o Ego e a Sombra, que é um aspecto pouco comum, senão extremo.

A Sombra será sempre projetada e terá como símbolo, geralmente, uma figura do mesmo sexo ao do indivíduo ou de um animal, fazendo com que este se afaste do mundo real, vivendo em seu mundo ilusório, sem se dar conta de sua própria responsabilidade no que tange a criação de um mundo exterior hostil. Com isso pode-se explicar as antipatias pessoais e preconceitos. Como se sabe, não é o indivíduo que projeta e sim o próprio inconsciente, que também engendra uma trama que tem por objetivo isolar o indivíduo. A Sombra pede posse!

Entretanto, a Sombra pode manter-se distanciada da consciência por dois outros mecanismos de defesa, que não a projeção, os quais seriam a negação (nega-se a existência das características sombrias) e a repressão (exclui-se os conteúdos indesejados da consciência alojando-os no inconsciente). Estas últimas tendem a transformar-se em sintomas psicossomáticos ou até doenças graves.

Byington (1984) conceitua a Sombra Patológica. Esta se formaria através das intensas defesas do Ego, pois a energia que deveria ser distribuída, quando reprimida, acaba por alimentar a Sombra, e quanto maior a defesa maior a energia canalizada para Sombra e com isso ela vai adquirindo vida própria, e, quando se expressa será responsável pelas mais inaceitáveis formas de conduta e comportamento.

 Segundo, Byington (1988) a Sombra Normal é aquela que pode ser conscientizada e integrada, ou seja aquela cujos símbolos podem ser confrontados quando o ego a tal se dispõe. O mesmo não ocorre com a Sombra Patológica, que é aquela cujos símbolos não tem acesso à consciência devido às defesas patológicas.

Deve-se ressaltar o fato de que Byington, como expoente da psicologia simbólica, define a Sombra e a Persona como estruturas pára-egóicas, ou seja, desenvolvendo-se juntamente com o Ego e participando da estruturação da consciência. Portanto, o confronto seria particularmente sentido entre Persona e Sombra e estruturado pelo Ego. (Byington, 1988).

A polaridade persona-sombra poderia ser descrita pela conduta adotada para adaptação e aceitação social (Persona) e o que não se aceita pela consciência (Sombra). (Byington, 1987).

von Franz, no livro A Sombra e o Mal nos contos de fada (1985) estabelece a diferença entre a Sombra coletiva (aquela que pertence a um determinado grupo) e a Sombra individual, e entre estas pode ser gerado um conflito muito intrincado, para o qual não existe uma resposta adequada ou correta ¾ não existe a resposta correta. Algo que a Sombra coletiva apoia, por exemplo, dar um diagnóstico de carcinoma para um doente, a Sombra individual condena (o profissional teme que a notícia possa levar a uma morte prematura, tal como o suicídio), pois haveria um acordo em que "fornecer o diagnóstico" é o que deve ser feito. Isto porque a Sombra se compõe, principalmente por valores morais e socioculturais não acatados. Mas, obviamente, este conflito seria travado ou não dependendo das funções dominante e inferior do indivíduo. A autora descreve a relação entre a Sombra e sua manifestação com respeito aos tipos psicológicos (aspecto que não será abordado neste trabalho).

Guggenbühl-Craig, em O Abuso do Poder na Psicoterapia (1978) diferencia a Sombra Coletiva e a Sombra Arquetípica, sendo esta última identificada pelo autor como o próprio "Princípio do Mal". Em relação ao mesmo, é referida a existência real e a autonomia, contrariamente à teoria da Privatio Boni. Assim, o Mal existe "per si" e, como tal, deve ser reconhecido quando se manifesta. Não constitui apenas a privação do Bem, da mesma forma que as Trevas não são o mesmo que "ausência da Luz"

 

 

3. EGO

 

Para Jung (1986) o Ego ou Eu é o centro da consciência, cabendo-lhe a tarefa de se relacionar com todos os outros conteúdos conscientes. É uma instância que responde a necessidades do Self (ver pág. 25) que lhe é superior.

"Inicialmente o ego está fundido com o self, porém, depois dele se diferencia. Jung descreve uma interdependência dos dois: o self possui uma visão mais holística e é, portanto, supremo, mas a função do ego é confrontar ou satisfazer às exigências dessa supremacia. O confronto entre o ego e o self foi identificado por Jung como característico da segunda metade da vida."(SAMUELS, et elli, 1988, p. 65).

O Ego se compõe das percepções conscientes, dos sentimentos, dos pensamentos, das lembranças, enfim, de todas as experiências conscientes da vida humana que ele filtrou e escolheu, visto que seria impossível registrar-se todas e quaisquer experiências vividas pelo indivíduo no consciente. Portanto, o Ego seleciona, e, como já foi mencionado anteriormente, parte do material rejeitado irá se alojar no lado sombrio da personalidade, parte será agregada à consciência e outra parte será desconsiderada Esta seleção se dá de acordo com a função dominante. Segundo Jung, são quatro as funções psíquicas, a saber, sensação (diz que algo existe), pensamento (revela o que é esse algo), sentimento (mostra o seu valor), intuição (indica suas possibilidades), e, cada indivíduo terá uma delas predominante, isto é, será de um desses modos que o indivíduo fará a maior parte das apreensões das experiências vividas.

Cabe ao Ego reconhecer e integrar a Sombra, e isto se dará na medida em que ele vai elevando seu grau de consciência dos conteúdos reprimidos e rejeitados que se apresentam, principalmente, através do mecanismo de projeção.

Somente um Ego forte, coeso e bem estruturado pode se defrontar com as figuras do inconsciente.

Cabe ressaltar que integrar a Sombra não é atuá-la. Pelo contrário! É justamente quando integrada que se minimiza sua atuação.

 

4. ÂNIMA E ÂNIMUS

 

Há uma imagem coletiva da mulher no inconsciente do homem, com o auxílio da qual ele pode compreender a natureza da mulher. Esta imagem herdada é a terceira fonte importante da feminilidade da alma. JUNG (1985). Evidentemente, há uma imagem coletiva do homem no inconsciente da mulher, que propicia a compreensão do homem.

Ânima, a imagem coletiva da mulher no homem e Ânimus, a imagem coletiva do homem na mulher. E por serem imagens inconscientes são projetadas em indivíduos do sexo oposto e assim sendo, podem ser reconhecidas. Entretanto, como ressalta Jung (1986) esse reconhecimento só se dará após a integração da Sombra, pois esta se apresenta associada aos conteúdos de Ânima e Ânimus. Por encontrar-se num nível mais próximo da consciência a Sombra acaba por se relacionar com esses Arquétipos; na verdade verifica-se a projeção sombria da Ânima e do Ânimus.

A Ânima dá um caráter sentimental (Eros) ao homem e o Ânimus dá um caráter conceitual (Logos) à mulher.

A ação do Ânimus na mulher faz com que esta seja mais determinada, prática, sabendo diferenciar e reconhecer, vivendo mais o Logos. Se ele estiver com força negativa, ele "aparecerá" para a mulher como uma "voz interna" que pode depreciá-la como mulher.

A ação da Ânima no homem faz com que ele estabeleça relações, expresse sua afetividade, mas também o iluda. Ele viverá mais o Eros. Quando sob o poder da Ânima negativa, se torna mal humorado, cheio de ressentimentos e ironias.

A Ânima e o Ânimus são os responsáveis pelas relações afetivas, são os parceiros invisíveis, como os chama Sanford (1987) em seu livro sob o mesmo título. As pessoas se apaixonam através das mútuas projeções. Portanto, tem-se as duas pessoas mais as projeções de Ânima e Ânimus, tendo-se um relacionamento a quatro.

Enfim, através das projeções de Ânima e Ânimus encontra-se respostas para as simpatias e antipatias sem razão de ser. A Ânima e o Ânimus são os mediadores entre o Ego e o mundo interno.

"Na análise, a separação da ânima ou ânimus está intimamente ligada ao trabalho inicial de tornar a Sombra consciente." (SAMUELS, et elli, 1988, p. 36). Isto em razão da Ânima e do Ânimus estarem, inicialmente, indiscriminados dos conteúdos da Sombra.

 

5. PERSONA

 

Persona era a máscara usada no teatro grego. Definia os papéis característicos de personagens.

"Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é individual, quando na realidade não passa de um papel ou desempenho através do qual fala a psique coletiva." (JUNG, 1985, p.134).

            Jung segue dizendo que "ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual ela é no fundo coletiva". Ela seria um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que "alguém parece ser", referindo-se aos dados reais do indivíduo, tais como nome, profissão, etc., dados que identificam o indivíduo, mas que não são a essência desse indivíduo.

A Persona indica como a pessoa deseja ser vista. O critério que será usado para realizar-se as devidas escolhas dependerá da cultura na qual o indivíduo está inserido, e não se deve  esquecer que, dentro dessas mesmas culturas, ocorrerão mudanças e transformações dos valores socialmente aceitos.

Como foi mencionado acima, na Sombra oculta-se aquilo que se considera ou se aprende a considerar indesejável. Em contrapartida, a Persona que se desenvolve através do que se aprende com os pais, familiares e do mundo social em que se está inserido como sendo comportamentos, atitudes e valores aceitáveis ou desejáveis, tende a apresentar essas características. Portanto, ela pode mostrar o que se quer revelar e esconder o que se quer ocultar. A Persona é um excelente escudo contra a Sombra, consequentemente, quanto mais se observa a Persona mais próximo se estará da Sombra. A Persona seria o mediador entre o Ego e o mundo externo.

"A Persona ideal é flexível, permite adequação a diferentes situações sociais. Teoricamente, quanto mais "roupas" soubermos usar, maiores chances de adaptação teremos. Isso, porém, desde que, ao mesmo tempo, essas máscaras possam responder também às características de nossa personalidade que estão por trás do ego, na Sombra. A Persona pode contribuir tanto para o desempenho brilhante de uma pessoa carismática quanto à performance de um charlatão." (GRINBERG, 1997. p.144).

Byington (1988) aponta a existência da Persona Normal e da Persona Patológica. Na primeira essa estrutura propicia o desenvolvimento simbólico normal enquanto que na segunda funciona como estrutura defensiva, mantendo os símbolos na Sombra Patológica.

A Persona pode ser confrontada pela consciência e ser alterada mas permanece Persona, ao contrário da Sombra, que quando confrontada deixa parcialmente de ser Sombra e amplia a consciência através de novos conteúdos. 

Segundo Byington existe a polaridade Persona ¾ Sombra, além das polaridades Ânima/Ânimus ¾ Persona que Jung enfatizou. Este colocou a Persona como sendo a estrutura com a função de propiciar a adaptação social (exterior) e não se preocupou com sua importância como estrutura  atualizadora do potencial arquetípico da personalidade. A Persona seria, para Byington, "uma ferramenta da qual nosso eixo simbólico se servirá dia a dia para estruturar a consciência através da adaptação social". E ela teria tanto a função de formação como de deformação da personalidade. Formação quando está associada a padrões positivos de adaptação e, deformação quando associada a padrões negativos ou neuróticos de adaptação, ou seja, quando na relações primárias o indivíduo se identifica com as figuras parentais ou outra qualquer muito relevante e que durante este período apresente distúrbios de personalidade e até mesmo físicos.

"O apego à persona é um dos grandes problemas do ego no desenvolvimento da personalidade. este apego pode inverter a função normal da persona na qual ela é estruturante e evita a formar sombra. Ao se apegar ao que passou, o ego não desenvolve o novo que irá se expressar pela sombra." (BYINGTON, 1988, p. 20).

 

6. COMPLEXO, INFLAÇÃO E POSSESSÃO

 

Para Jung, os complexos tinham um papel central na Psicologia Profunda. Por complexo se entende um conjunto de imagens e idéias, agrupadas em torno de um núcleo derivado de um ou mais arquétipos, caracterizadas por uma intensa carga emocional no inconsciente.

"Cada complexo é constituído, segundo definição de Jung, primeiro de um "elemento nuclear" ou "portador de significado"; estando fora do alcance da vontade consciente, ele é inconsciente e não-dirigível; em segundo lugar, o complexo é constituído de uma série de associações ligadas ao primeiro e oriundas, em parte, da disposição original da pessoa, e, em parte, das vivências ambientalmente condicionadas ao indivíduo." (JACOBI, 1986, p. 18).Fica evidente que foi através do processo associativo que Jung chegou a conceituar complexo, e que este possui autonomia, agindo ao seu bel-prazer sem a interferência da vontade do indivíduo que o porta. Por isso, os complexos podem estar presentes nos quadros delirantes, alucinatórios e, até mesmo, nos que concernem as questões sobre possessão espiritual.

Pode-se ter uma "consciência racional" de um complexo, mas daí para seu entendimento e conscientização que liberariam o indivíduo de sua senda, é uma longa jornada. Ou seja, pode-se dizer que se tem um complexo paterno, mas isso não significa que se entenda que ele tem bases no arquétipo do pai e nas experiências vividas ou não com a figura paterna real. Apenas, reconhecesse que se tem um complexo paterno e que ele faz com que intensas emoções brotem, sem saber-se realmente "de onde elas provém". A conscientização vem através do sentir e não do pensar a respeito de um complexo.

"Inflação refere-se em um grau maior ou menor a uma identificação com a psique coletiva causada por uma invasão de conteúdos arquetípicos inconscientes ou em resultado de uma consciência ampliada. Existe desorientação acompanhada ou de um sentimento de imenso poder e imparidade ou de um senso de desvalor ou de não se ter nenhuma importância. O primeiro representa um estado hipomaníaco, o segundo, depressão." (SAMUELS, et alli, 1988, p. 112).

É a expansão do Ego, da personalidade, através da identificação com um arquétipo ou até com uma personalidade histórica, política ou religiosa, sendo esta última identificação considerada de caráter patológico, na qual ocorre uma dissociação completa da personalidade, tendo em vista que o indivíduo assume a identidade de outro – ele pode dizer que é o Papa, por exemplo. A inflação é, portanto, uma exacerbação da importância pessoal que visa compensar um sentimento de inferioridade.

Quando essa identificação é com o Self, tem-se uma situação muito perigosa (embora, toda e qualquer identificação com um arquétipo seja perigosa), pois impossibilita o processo de Individuação (ver pág. 10), porque o indivíduo pode se identificar com a imagem de Deus.

Jung escreveu que: "assim, ele próprio, ou a outra pessoa, se transforma em deus ou no diabo. Esta é a manifestação característica do arquétipo: uma espécie de força primordial se apodera da psique e a impele a transpor os limites do humano, dando origem aos excessos, à presunção (inflação!), à compulsão, à ilusão ou à comoção, tanto no bem como no mal. Aí está a razão porque os homens sempre precisaram dos demônios e nunca puderam prescindir dos deuses". (JUNG, 1998a, p. 62).

Já a possessão significa uma apropriação ou ocupação da personalidade do Ego por um Complexo (ver pág. 22) ou por um Arquétipo. Perde-se o livre-arbítrio, se está à mercê de uma força autônoma que pode desembocar, dependendo do grau, numa neurose ou psicose, portanto interferindo no equilíbrio psíquico.

 

7. SELF OU SI-MESMO

 

O Si-mesmo é o centro ordenador, unificador e totalizador da psique total (consciente e inconsciente). Ele engloba o Eu ou Ego. É representado pelo Mandala, por Jesus Cristo, pela imagem de Deus. É o Deus que habita em nós, mas também o Diabo, visto que é o todo, carregando em si a luz e as trevas.

O Si-mesmo é o todo psíquico. É o arquétipo central do inconsciente coletivo. Atrai para si os outros arquétipos para harmonizá-los na vida consciente e assim conferindo à personalidade um sentido de firmeza, de coesão, de unidade.

É um desejo do ser humano conhecer-se a si mesmo plenamente e atingir um estado de auto-realização, entretanto, tal empreendimento é praticamente impossível. Chegar-se-á até onde for possível, pois tal tarefa dependeria da conscientização de tudo e de como o Ego se ajusta às mensagens do Self, e, embora possam Ego e Self estar funcionando bem harmoniosamente, conscientizar-se de tudo poderia ser, analogicamente falando, conhecer à Deus!

Portanto, o Self ou Si-mesmo serve como um orientador no caminho do autoconhecimento. Ele se expressará, principalmente, nos sonhos, guiando o indivíduo através do mundo inconsciente para trazer à consciência aspectos relevantes para o seu desenvolvimento e crescimento pessoal, levando-o à auto-realização na medida de suas próprias possibilidades interiores.

O Self também possui sua sombra, que nada tem a ver com o Arquétipo da Sombra. Tem-se, então, o lado "negativo" do Self. Deve-se ter em mente que todos os arquétipos apresentam os dois pólos, positivo e negativo. A Sombra do Self nada mais é do que o arquétipo do Mal, um arquétipo maior, mais divino que o "arquétipo tido como do mal" no contexto humano ¾ a Sombra.

"Por isso diz Jung: "Reside na esfera das possibilidades reconhecer o mal relativo de sua natureza, ao passo que olhar nos olhos do mal é uma experiência tão rara quanto comovente". A alusão de Jung refere-se ao aspecto arquetípico do Mal, ao lado escuro da imagem de Deus ou do Self, cuja insondabilidade ultrapassa bastante a maldade da sombra humana." (von FRANZ, 1992. p.132).

 

Capitulo II - O RETRATO DE DORIAN GRAY – Um breve resumo

 

Dorian Gray era um jovem de 20 anos pertencente à alta burguesia inglesa, de uma beleza física inimaginável, e foi retratado pelo pintor Basil Hallward, que se apaixonou pelo rapaz.

Lorde Wotton era um homem extremamente inteligente, perspicaz, irônico e com grande vivência nos relacionamentos humanos, capaz de exercer forte influência sobre as demais pessoas. Este era amigo de Basil e tornou-se muito próximo de Dorian, passando a instigá-lo e a "estudá-lo" em suas reações e atitudes.

Quando Dorian Gray deparou-se com a obra pronta (seu retrato) disse:

"– Que tristeza! – murmurou Dorian. – Que tristeza! – repetiu, com os olhos cravados na sua efígie. – Eu irei ficando velho, feio horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar a troca. Daria até a alma!".

A partir daí temos o desenrolar da história. Dorian se apaixona por uma jovem artista, Sibyl Vane, que se apresentava num pequeno teatro. Então lhe fala em casamento. A moça, muito humilde, fica lisonjeada. Sua mãe e irmão, que estaria ingressando na Marinha, ficam preocupados. Dorian convida seus dois amigos, Basil e Lorde Wotton para assistir uma das apresentações da moça. Nessa noite, a moça representa muito mal. Dorian fica consternado. Seus amigos vão embora lhe dando palavras de estimulo, enaltecendo a beleza da moça. Dorian vai até o camarim. Sibyl está feliz, e lhe diz que de agora em diante só viverá para o amor de Dorian. Toda a energia vital de Sibyl estava dirigida ao representar, assim que se apaixonou, sua energia foi dirigida para o objeto amado e apresentou-se como uma artista medíocre. Isto levou Dorian a desapaixonar-se. Então, ele a humilhou e desprezou. Virou lhe as costas para nunca mais voltar.

Ao chegar em casa, Dorian, dirigiu-se a seu quarto e ao olhar seu retrato quase ensandeceu, ao perceber que o quadro havia se alterado. Seu sorriso não era mais o mesmo. Caracteriza-se pelo cinismo e maldade. Refletiu, e percebeu que o quadro refletia sua alma. Portanto deveria se desculpar com Sibyl, assim o quadro voltaria ao normal. Entretanto, era tarde demais, Sibyl havia cometido suicídio.

A partir de então, Dorian passou a viver tudo que lhe era ou não permitido. Passou a ter uma conduta fria e interesseira com todos a sua volta. Induziu pessoas a atos vulgares e criminosos, sempre impune. Assassinou seu amigo Basil, à facadas, quando este descobre o que está acontecendo. Leva outro amigo, um químico, ao suicídio após induzi-lo a se desfazer do cadáver de Basil. Apenas o quadro se alterava, transformando-se numa figura monstruosa sendo que das mãos da imagem gotejava sangue.

Dorian já contava com 40 anos, quando pensou em curar sua alma. Pensou em levar uma vida pura, sem magoar quem quer que fosse. E por isso não se aproveitou de uma camponesa. Ele se dá conta de que sua soberba o levou a está vida de pecados. Amaldiçoou sua beleza e mocidade e pensou que sem elas sua vida seria pura. O que mais lhe doía era a morte, em vida, da sua alma.

Dorian havia escondido o quadro num quarto desocupado, que fora de seu avô. Sobe até o quarto, olha o quadro e grita de terror. Apesar de suas "boas ações" o quadro não se alterara para melhor como supunha, continuava a gotejar sangue ainda mais vivo e estava mais horrendo.

Então Dorian percebe claramente a verdade: por vaidade, ele poupara a camponesa e a hipocrisia pusera-lhe no rosto a máscara da bondade. A única prova de seu mau caráter, de sua consciência, era o quadro. Então, resolveu destruí-lo. E, com a mesma faca com que matou Basil, trespassou o retrato. Ouviu-se um grito. Os criados acudiram. E, quando conseguiram adentrar ao quarto, viram na parede o magnífico retrato, e, no chão, jazia o corpo de Dorian, com a faca cravada no peito, que só pôde ser reconhecido pelos anéis em seus dedos.

 

 

Capítulo III. UMA INTERPRETAÇÃO PSICOLÓGICA COM ABORDAGEM JUNGUIANA DO ROMANCE

 

Sabe-se que é possível interpretar "junguianamente" um romance sob vários ângulos. Dessa forma, pode-se afirmar, que não existe uma interpretação única e verdadeira, e sim que existem tantas interpretações quantos forem os ângulos ou enfoques de cada analista.

Como tantas  vezes na vida, nesta obra literária o "pacto diabólico" não é explícito. A todo instante arranjos sombrios podem ocorrer à revelia da consciência.

O enfoque vislumbrado à primeira leitura deste romance foi: o personagem Dorian, um indivíduo que sofreu muito com sua dificuldade em integrar aspectos da Ânima com o Ego, fazendo com que aspectos sombrios da Ânima viessem à tona. Poder-se-ia dizer que Dorian sofreu uma possessão da Ânima e se apegou à Persona. Como também não houve uma integração adequada da Sombra, esta lhe cobrou altos tributos, levando-o a autodestruição. Para livrar-se de seus crimes e pecados, tentou destruir a Sombra que estava retratada/projetada em seu retrato, e com isso destruiu-se. Como Jung (1987) no livro Memórias, Sonhos e Reflexões, pontua ao falar sobre um atendimento a uma cliente que desejava apenas "confessar" um crime que havia cometido no passado: "aquele que comete um crime destrói a própria alma; quem assassina já está se justiçando".

O personagem de Basil Hallward, o pintor, que se apaixona pela Persona de Dorian, tendo projetado sua Ânima sobre a mesma. Este foi o fator desencadeante para a intensa relação entre ambos.

O personagem de Lorde Wotton é a figura que induz Dorian a viver "seus pecados" ¾ foi quem projetou primeiramente a Sombra sobre Dorian, assim poderia vivê-la à distância, divertindo-se e isentando-se de sentimentos de culpa, remorso ou de receber qualquer forma de punição. Tanto que ele diz a Dorian:......"Sim, Dorian, você há de gostar de mim sempre. Eu represento para você todos os pecados que você nunca se animou a cometer" (WILDE, 1998, p.86). Esta frase é uma excelente descrição da Sombra, a porção da personalidade não vivida. E, este é um aspecto interessante no relacionamento de ambos, parece que houve uma dupla projeção de aspectos sombrios, a Sombra de Lorde Wotton em Dorian e vice-versa. Cada um experimentaria o não vivido do outro.

A personagem Sibyl Vane é a atriz bela e competente por quem Dorian se apaixona. Na verdade, ele se "apaixonou" por sua imagem projetada. Dorian era bonito e "representava" o "bom moço" (Persona). Quando Sibyl, por haver se apaixonado por ele, tem bloqueada sua habilidade em representar, não mais se enquadra na projeção de Dorian, e como se por mágica, ele desapaixona-se. Dorian, na verdade, possuía um caráter narcísico ¾ havia se "apaixonado" por sua própria imagem no momento que vislumbrou seu retrato. Portanto, estava desconectado do mundo afetivo, não se importava com os sentimentos alheios, estes só lhe serviam para aumentar seu próprio brilho. Pode-se dizer que Dorian possuía como função dominante o pensamento, e, como função inferior o sentimento. (vide pág. 15).

Nesse romance observar-se que não se pode manter a Sombra à distância, não se pode remetê-la para a escuridão da eterna inconsciência, mantendo-se uma condição de inocência ou pureza de Ego. Foi através dessa atitude que Dorian chegou à própria destruição. Dorian se apegou à sua Persona caracterizada por intensa beleza e fascínio, não permitindo ao Ego a vivência do envelhecimento natural, do desenvolvimento rumo a Individuação, expressando parte dessa experiência de vida no retrato ¾ o retrato além de revelar as maldades por ele praticadas, retratava seu envelhecimento. Como se envia os criminosos às prisões, os leprosos a asilos, demônios aos infernos, Dorian enviou sua Sombra ao retrato, imaginando que com isso ficaria livre dela.

Observa-se, no dia-a-dia, como é usual a projeção da Sombra; é muito mais fácil projetá-la à compreendê-la e integrá-la ao Ego. O indivíduo é sempre vítima e jamais agressor.

Dorian envaidecido com sua beleza plástica acabou por inflacionar o seu Ego e, com isso, passou a identificar-se com a própria beleza, com o não envelhecimento e, conseqüentemente, com a imortalidade. Ele se identificou com o próprio Self. Sentia-se como um ser divino. Em se identificando com o divino, acreditou que poderia tudo. Tudo estaria a seu alcance, tudo era possível até mesmo a impunidade. Seu Ego inflado podia tudo. Com isso dava-se ao luxo de ser inconseqüente e irresponsável com todos a sua volta. E sua Sombra passou a ser retratada-projetada em seu retrato. Sua alma-Ânima negativa impregnava-se à tela. Através de artifícios baseados na sedução, ironia, sarcasmo e ilusões, atingia seus objetivos (mecanismos de atuação da Ânima). Esses mesmos artifícios foram empregados por Lorde Wotton junto a Dorian.

Assim, Dorian seguia impunemente. Mas, aos 40 anos, quando, aproximadamente, se evidencia o processo de Individuação (vide pág. 10) ele decide modificar-se.

É por volta da segunda metade da vida que ocorre a ativação arquetípica que requer transformação ¾ metanóia ( designação que Jung deu a máxima separação entre o Ego e o Si-mesmo para depois se dirigir novamente ao seu encontro rumo a uma maior sabedoria; é "o outro lado", menos produtivo porém mais instrutivo) e se acentua o perigo da enantiodromia (tendência do oposto inconsciente e não integrado vir a emergir).

É nesta época que valores que, até então, serviam para estruturar a vida do indivíduo, deverão ser reorganizados e novos deverão ser aceitos e vividos. Entretanto, Dorian não tinha os motivos e as razões "corretos" para trilhar o processo, mais uma vez os motivos do Ego prevaleciam: a vaidade e a hipocrisia. As bondades que praticou eram tão falsas quanto sua imagem física ¾ escondiam sua Sombra. A Individuação está a serviço do Self e não do Ego, embora todas as estâncias da psique estejam em jogo.

Então, num ato impulsivo e incontrolado tenta dar um fim a seu sofrimento e a sua Sombra, que em sua visão deu origem a tudo, e ao trespassar o retrato com uma faca, cai morto e envelhecido, ou seja, revela-se como é. Dorian morreu sem reconhecer e integrar sua maldade, sem amadurecer. Ao destruir sua Ânima-Sombra destruiu a si mesmo. Deve-se lembrar que o primeiro passo é reconhecer e integrar aspectos sombrios de nossa vida psíquica, para então integrar a parte contra-sexual (Ânima/Ânimus) que irá desinflar o Ego.

 

 

Capítulo IV. ALGUNS EXEMPLOS DA VIVÊNCIA PSICOTERAPICA SEMELHANTES AO ROMANCE

 

Quantas pessoas tentam destruir sua Sombra (mesmo que projetada em algo ou alguém) e se destroem, perdendo suas características individuais!

Nos consultórios surgem indivíduos com queixas relativas a um desencontro consigo mesmo. Conflitos existenciais os dividem, fragmentam, dilaceram e não os permite seguir um caminho mais harmonioso, facilitador e menos doloroso. Na medida em que ouve-se suas queixas, intuí-se seus "crimes" que aguardam o momento para a "confissão". A Sombra sempre se adianta no processo.

Geralmente, no processo terapêutico o profissional se depara inicialmente com a Persona do cliente, embora, às vezes, aspectos sombrios sejam despejados logo no início ¾ confessar seus "crimes" seria seu objetivo inicial. Mediante os contatos, estabelecendo-se a empatia necessária, os "crimes, pecados, defeitos" começam a aparecer, pois a conduta do terapeuta faz da sessão um ambiente continente à essas queixas por não emitir qualquer julgamento de valor. Com isso, parte do material sombrio começa a atingir níveis mais conscientes. Então passa-se a ter um contato "indireto" com o material sombrio, com aquele material que se encontra no inconsciente pessoal sendo projetado no mundo exterior, nas pessoas com as quais o indivíduo estabelece contatos, e, através dos sonhos.

Na medida em que entra em contato com os aspectos sombrios reprimidos o conteúdo projetado começa a diminuir e, conseqüentemente, apresenta-se uma melhora nas suas relações com o mundo e na energia disponível. Pois, para reprimir a intensa força da Sombra, há que se desenvolver uma Persona por demais poderosa, que acabará por impedir que se tire proveito da natureza instintiva e criativa da Sombra. Provêm da Sombra as inspirações, as motivações, as fortes emoções. Mas, no momento em que os aspectos sombrios são conscientizados depara-se com um dos momentos mais críticos da análise. É neste momento que o cliente tende a abandonar a análise. Ele está consciente de seus aspectos que foram reprimidos e como conviver com eles agora! Como abraçar algo que se escolheu negar? Então, fica claro o grande impasse. Mas evidentemente, a análise vai propiciar condições para que o indivíduo reflita a respeito e integre com maior naturalidade os aspectos tidos como "negativos", sem que ele tenha que viver impulsos destrutivos. Então, o trabalho terapêutico continua evidenciando um processo mais harmonioso entre o Ego e a Sombra. Paralelamente, o confronto com figuras de Ânima ou Ânimus. Entretanto, sabe-se que as respostas de cunho emocional muito forte dadas por um indivíduo estarão envolvendo Sombra - Ego - Persona - Ânima/Ânimus. Portanto, referir-se ao trabalho psicoterapêutico em fases estanques é apenas uma forma didática de apresentá-lo.

Na prática terapêutica muitas vezes depara-se com aspectos sombrios dispares dos apresentados por Dorian Gray. Freqüentemente, as queixas se referem a um Ego identificado com a Sombra Pessoal caracterizando uma Persona de Coitado, isto é, o indivíduo se sente muito inferiorizado, menosprezado e desprezível, sem perspectivas. Ou encontra-se um indivíduo que não consegue se sobressair por seu lado positivo e passa a viver o negativo ¾ isto é freqüentemente observado na conduta de crianças e adolescentes que estão competindo com uma figura fraterna ou parental "que deu muito certo". O dito popular "falem bem ou mal, mas falem de mim" pode muito bem representar essa conduta.

Mas, na sua maioria, os clientes apresentam queixas nas quais fica claro e indiscutível a projeção da Sombra. Da mesma forma que Dorian "projetou" no quadro, eles projetam no patrão, no trabalho, nos filhos, no carro, nos pais, no país, e até mesmo no terapeuta. Não percebem como seus tais conteúdos projetados. Por exemplo: "o patrão sempre pega no meu pé", querendo dizer que o patrão é exigente, crítico e injusto, não percebendo que suas atitudes seriam inadequadas às funções que exerce. E daí vem o desejo de que o patrão seja prejudicado de alguma maneira. Outro exemplo: a mãe reclama da filha que só pensa em sair, só quer roupas de grife e não percebe que é ela quem está cansada de ficar em casa e desprovida de vaidade na Persona, pois a vaidade estaria reprimida na Sombra. E assim temos muitos outros. A necessidade do indivíduo é de sempre  emitir um julgamento crítico e justificar que o outro é quem deve se modificar (como Dorian pensou ao apunhalar o retrato), se converter segundo seus critérios, pois o outro está errado, o outro age com maldade e maledicência. Não percebe que mesmo que o outro viesse a se modificar e a se transformar naquilo que julga ser o certo, não estaria livre dos problemas. Apenas estaria reforçando sua crença de que estava certo, alimentando ainda mais sua Persona, inflacionando mais o seu Ego e dando maior força e poder a sua Sombra, que numa questão de tempo cobraria seu tributo. O indivíduo veria a si mesmo como perfeito, sem falhas ou defeitos e, consequentemente, acabaria sendo rejeitado no convívio social; afinal é impossível conviver com a perfeição. Mesmo sendo a perfeição um estado inviável sabe-se que muitos indivíduos buscam-na perseguindo uma exigência do mundo externo para o sucesso, seja ele tanto na vida pessoal quanto na profissional. E, quanto maior for a auto-imposição para atingir-se a perfeição, tanto maior será a Sombra.

Cabe, aqui, uma pequena história. Certa vez, dois padres caminhavam pelas margens de um rio. Na margem oposta, encontrava-se uma moça nua que pedia ajuda para atravessar o rio. Um dos padres foi até a outra margem, pegou a jovem nos braços e atravessou o rio. Esta agradeceu e seguiu seu caminho. Os dois padres prosseguiram em sua caminhada. Após algumas horas, o padre que observou seu companheiro ajudar a jovem, falou: o que você fez foi muito grave, você não deveria ter carregado a jovem nua, isto é impuro, é pecado. Ao que o outro responde: o pecado está na sua cabeça, é você quem o está carregando até agora. É óbvia a projeção da Sombra.

Percebe-se através dessa história que um Complexo (ver pág. 22) foi ativado, uma emoção dominou o padre que observou a cena e fez com que ele emitisse seu julgamento cáustico, revelando o que menos gostaria de ver em si mesmo uma parcela de sua Sombra.

Portanto, sempre que se depara com uma situação em que o cliente denota intensa reação emocional frente as situações cotidianas, pode-se detectar uma ativação de um complexo e, consequentemente, uma projeção de algum conteúdo sombrio da personalidade.

É perfeitamente natural a existência da Sombra e conseqüentemente sua projeção. Não é possível que alguém cresça desprovido da mesma, e nem que se conscientize dela totalmente. O processo de conscientização é gradual e constante, demandando muita disposição e persistência.

 

 

Capítulo V. O QUE FAZER COM O LADO SOMBRIO

 

 Até o momento, procurou-se discorrer sobre a imagem psíquica da Sombra, como ela se desenvolve, o que ela carrega e seus efeitos sobre o indivíduo.

            Observa-se que o papel da Sombra é de extrema importância, pois através dela pode-se observar aspectos valorizados negativamente pelo indivíduo, que muitas vezes impedem sua criatividade, sua maior adaptabilidade além de bloquearem sua jornada rumo a Individuação.

            Todo ser é composto de luz e trevas, consciente e inconsciente, feminino e masculino e nesta dança entre os opostos o Ser trilha seu próprio caminho. Todo indivíduo é viajante e viagem. Andarilho e caminho. Início e fim. Parte do todo e o todo. Único, mas só se dá conta disso na medida em que se conscientiza do negado, do proscrito no fosso de sua própria psique.

            Portanto, através da Sombra é iniciada a grande viagem ao mundo mágico, aterrorizador e encantador de cada indivíduo. A Sombra é um imenso gerador de energia psíquica, buscando fazer a luz e sendo a portadora da luz (Lúcifer), ou seja, aquela que  despojará o indivíduo da soberba divina, remetendo-o ao seu devido lugar no contexto humano. Nada perfeito, pois está sempre em mutação em busca de ser o que é. Parafraseando Milton Nascimento: "Eu caçador de mim!".

            Então, o que fazer com a Sombra?

            "Assumir a sombra implica confrontá-la e assimilar seus conteúdos dentro de um autoconceito mais amplo. É típico que esses encontros de cura ocorram na meia-idade, no "meio da jornada da vida"; mas os encontros com a sombra podem ocorrer sempre que sentimos nossa vida estagnar-se e perder coloração e significado. O "trabalho com a sombra" pode ter início, de modo especial, quando reconhecemos e sentimos os efeitos constritores da negação; quando começamos a duvidar dos valores pelos quais vivemos até agora e vemos que nossas ilusões sobre nós mesmos e o mundo se estilhaçam; quando somos dominados pela inveja, pelo ciúme, por impulsos sexuais ou pela ambição; ou quando sentimos a superficialidade das nossas convicções." (ZWEIG E ABRAMS, 1998, p.261). Ou mesmo por uma doença física ou limitação incapacitante.

            Esse fascinante confronto é extremamente doloroso, pois se trata, em especial, de uma batalha moral. Como esperar facilidades e boa vontade em rever o conteúdo sombrio abdicando o ideal de ego? Como assimilar que antes do encontro com a Sombra muito do que se acreditava era sonho e ilusão? Sim, teme-se o que fascina. Temerário é o dia do encontro embora se anseie por ele. Brindar e sorver aos goles o conteúdo da taça da Sombra é embriagar-se do mais poderoso e perigoso elixir. Esta taça jamais se esvaziará. Seus domínios são, e sempre o serão, como um poço de conteúdo inesgotável, escuro e sem fim. É renascer para o todo buscando desenvolver em si aquilo a que se negava "valor" no exterior e que, invariavelmente, aparecia como projeção. Gerando irritabilidade, críticas veladas ou simplesmente medo. Parece um contra-senso buscar nas trevas a luz interior; no mal o bem; no reprimido a expansão; no rejeitado o afeto convidativo a abraçar a si próprio. Mas, o dito popular já o afirmava sabiamente: "O Diabo não é tão feio quanto parece!". Isto revela como geralmente as fantasias antecipatórias quanto aos contatos com a própria dimensão inconsciente são mais assustadoras do que a própria realidade. Normalmente, teme-se o desconhecido por montar-se um quadro imaginário prévio com características temíveis. E, por essa mesma razão, algo de impositivo se apresenta na forma de um desejo, de ir de encontro ao desconhecido. Tem-se aqui uma das mais famosas equações da Psicologia: desejo equivalente a medo, e vice-versa.

A Sombra será sempre um "que fazer" na vida humana. O caminho do ódio, que um dia poderá levar ao amor. Ela faz com que o indivíduo se depare com aspectos hediondos de si mesmo, faz com que ele sinta ódio e raiva dos outros, para que depois perceba que essas emoções eram dirigidas a aspectos de si mesmo. Diz-se que se deve atentar para os desafetos, isto porque através deles e dos comentários e pensamentos "maldosos" que se tece a respeito dos mesmos é que se pode enxergar parte dos próprios aspectos sombrios. Eles, os portadores dos desvalores, acabam por evidenciar complexos do próprio indivíduo e por isso o impregnam de emoções tão fortes, tais como, inveja, raiva e ódio. Isto pode ser muito produtivo, na medida em que o indivíduo vai se conscientizando do  menos aceitável de si mesmo. Mas, como tudo apresenta dois lados, tem-se sua face mais desagradável que seria a de dificultar as inter-relações pessoais. Confunde-se o outro com o eu, e aí reside a Babilônia humana. Nos relacionamentos há projeções de complexos de parte a parte, e por haver pouca ou quase nenhuma consciência para admitir as próprias falhas, não há entendimento.

Ora, confrontar a Sombra parece ser o único procedimento criativo para o crescimento. Isto porque leva ao reencontro de muitas das potencialidades intrínsecas que um dia, por quaisquer razões foram enterradas nas profundezas do inconsciente. Através do confronto/encontro com ela poderemos, como citado em ZWEIG e ABRAMS, 1998, p. 24:

  • "chegar a uma auto-aceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo de quem realmente somos;

  • desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente nossa vida cotidiana;

  • nos sentir mais livres da culpa e da vergonha associadas aos nossos sentimentos e atos negativos;

  • reconhecer as projeções que matizam as opiniões que formamos sobre os outros:

  • curar nossos relacionamentos através de um auto-exame mais honesto e de uma comunicação direta;

  • e, usar a nossa imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais) para aceitar o nosso eu reprimido."

Porém, como e quanto da própria Sombra cada um é capaz de integrar (e carregar) parece ser a questão crucial no processo de desenvolvimento. Como já mencionado neste capítulo, ela jamais será integrada totalmente. Gradualmente, através da função transcendente (ver pág. 9) vai se integrando e diferenciando aspectos inconscientes, tornando-os conscientes e, por isso, permitindo a si mesmo optar por caminhos mais próprios, mais relevantes à própria individualidade. E assim, pouco a pouco, os aspectos ocultos vão alcançando a luz da consciência, na medida da própria necessidade de crescimento e desenvolvimento de cada indivíduo. Processo esse que não pode e nem deve ser pressionado e acelerado, por se incorrer numa violação no desenrolar do desenvolvimento individual em si, com o risco de desencadear no indivíduo uma patologia grave, tal como uma dissociação.

O "que fazer" implica em pensar no Mal. Entender sua existência autônoma e conferir-lhe, humildemente, o status de realidade.

Mas o que é o Mal? Segundo o dicionário Koogan Larousse, Mal s.m. Aquilo que prejudica, fere, ofende, que se opõe à virtude; à moral, ao direito, à justiça. / Dano, prejuízo, malefício. / Achaque, doença, enfermidade. / Calamidade, infortúnio, desgraça. / Dor, tormento, aflição. / Estado mórbido. Tem-se aqui algumas definições para Mal. Entretanto, sabe-se que o conceito de Mal é muito relativo, pois está implicitamente relacionado ao ângulo através do qual é observado. O Mal teria tantos ângulos quanto às culturas existentes, correntes religiosas e filosóficas e porque não, igual número aos dos indivíduos existentes no mundo. Além do mais, ele - o Mal – tende a modificar-se de acordo com a época e/ou situação para um mesmo indivíduo ou cultura. Portanto, o Mal é uma questão de referencial. Todos os indivíduos aprendem a pensar, sentir e agir em termos de bem e do mal, certo ou errado, moral ou imoral, legal ou ilegal. São esses conceitos que norteiam a existência desde o nascimento. O bem é sempre o que se busca, o mal o que se evita. Tudo seria muito simples se não houvesse o inconsciente e sua autonomia. É atribuída a São Paulo a frase: "Senhor, por que faço o mal que não quero e não faço o bem que quero?". Por que não afirmar que talvez essa seja uma das primordiais definições para o inconsciente?

Portanto, o chamado Mal existe e pronto, é real e concreto. É um aspecto arquetípico da natureza humana. Afinal, os animais não pensam nestes termos - de Bem e de Mal. Para os seres humanos este é um fator desconcertante e complexo pois, às vezes, deixa-se de praticar um "mal" tendo em vista o aspecto social e pratica-se um "mal" pessoal, e vice-versa. As crises e conflitos advindos dessa realidade estão à nossa volta diariamente. A mídia explode em situações dessa natureza, por exemplo, as omissões das testemunhas de um crime em favor de sua integridade física.

Quando se fala em aspectos sombrios, na Sombra, está se fazendo uma alusão a um dos referenciais para o Mal. A inconsciência desses aspectos causa dano ou prejuízo ao processo de Individuação, além de interferir na vida diária do indivíduo e do grupo. E, na medida em que vão se tornando conscientes, deve-se ter uma postura madura e responsável para que estes não se prestem aos interesses do Ego, passando-se a agredir os demais com as "próprias verdades". Tornar-se consciente não implica em despejar a própria realidade nos outros. Está acima disso. Como já referido, a consciência propicia uma maior liberdade de escolha, até mesmo, do que fazer com os aspectos que se tornaram conscientes. O processo de Individuação não implica em disputas envaidecidas de poder e força. Não há o melhor, apenas o diferente ou diferenciado em si mesmo.

O Mal associado ao Diabo, Demônio, Lúcifer ou Satanás surgiu apenas com o advento do Cristianismo. Antes deste, o Mal era encarnado de outra maneira (aspecto muito complexo e extenso para ser explanado neste trabalho). Então, foi a partir do Cristianismo que o Diabo passou a ser a personificação do Mal, portanto uma imagem simbólica para representar os conteúdos reprimidos, não aceitáveis em determinadas culturas.

Como o Mal é um arquétipo, não pode ser considerado nem bom ou ruim. Costumo dizer que o diabo não é bom nem mau; bom ou mau é o desejo do homem, assim o diabo estaria a serviço do homem, para exemplificar esta questão.

Então, o que fazer com o Mal? Ignorá-lo? Adiar o confronto? Nada fazer?

Marie-Louise von Franz no livro A Sombra e o Mal nos Contos de Fadas, utiliza-se da sabedoria implícita nesses contos para lidar com os aspectos sombrios.

"Posso lhes contar estórias que dizem que se você encontrar o mal deve lutar contra ele, mas existe igual número que diz que é melhor fugir, sem tentar enfrentá-lo. Algumas dizem para sofrer sem retrucar, outras dizem que se nos confrontarmos com o mal o único jeito é pregar-lhe uma peça; outros dizem: seja honesto mesmo frente ao demônio, não se envolva em mentiras." (VON FRANZ, 1985, p. 155).

Na obra, supra citada, von Franz reporta o mal na natureza, pouco abordando sob a ótica religiosa, e, menciona que Jung disse no volume Aion, de suas Obras Completas, que antes do cristianismo o Mal não era tão mal. Isto porque os preceitos religiosos estabeleceram normas muito rígidas de comportamento não respeitando a ética humana, e tais valores judicativos são mais conscientes do que inconscientes. A sociedade humana, como um todo, revela uma tendência basicamente ética. Já o mal referido nos contos de fada se apresenta através de comportamentos não éticos, isto é, denota que o ser humano por transgredir certas regras naturais de conduta, estabelecidas para aquele dado grupo social, se expõe ao mal ou torna-se "mal" pelo que foi rejeitado. Outra expressão para amplificar esta questão na psicoterapia: "por que pensar que se pode adentrar pelo inferno, sem dele sair chamuscado"? É o que a von Franz denomina de ousadia infantil, referindo-se a atos que aparentam coragem, mas que na verdade são atitudes inconseqüentes, sendo que o indivíduo não percebe o quanto está desafiando o Mal e, consequentemente, se expondo ao mesmo; de que este é muito maior do que ele próprio e, por isso o engole, cobra seus tributos. Certamente, a ousadia infantil é algo extremamente perigoso e destrutivo.

von Franz, também, tece uma relação entre a Morte e o Mal, sendo a Morte a última batalha contra um inimigo invisível. Pode-se, então, dizer que Dorian terminou por sucumbir ao Mal quando pôs fim a própria vida, na vã tentativa de exterminar o Mal. Como se sabe, não se ousa encarar qualquer divindade. Este, portanto, foi mais um e o último erro de Dorian.

A autora ainda apresenta contos sobre a possessão pelo arquétipo do Mal e, descreve os indivíduos mais propícios à esta perigosa e destrutiva aventura, que seriam àqueles que vivenciam a solidão, seja ela física ou emocional ou aqueles que fazem uso abusivo de bebida  alcoólica ou outras drogas indutoras de estados alterados de consciência. Estes recursos são utilizados por pessoas que pretendem, também, um contato espiritual, e que as mesmas sabem que, primeiramente, acabarão por encontrar demônios  para depois atingirem um maior estágio de consciência e, consequentemente, uma maior elevação espiritual. O próprio Cristo enfrentou mil demônios quando esteve só no deserto.

"Assim, quem vive sozinho não somente atrai o mal de sua própria natureza, constelando-o através do inconsciente, mas também atrai projeções." (VON FRANZ, 1985, p. 199).

Refere ainda a autora a importância de certos rituais para que o indivíduo se proteja do mal, que seria a formação de um círculo protetor quer seja estando próximo daqueles com os quais tem boas relações afetivas ou mesmo de objetos conectados à sua afetividade positiva. Aqui encontra-se outro aspecto que faltou a Dorian. Aos poucos ele foi se desligando e até matando as pessoas com as quais tinha vínculos afetivos. Foi se ensimesmando, agigantando sua maldade.

Os contos de fada procuram ensinar como lidar com ele; mostram quando e como agir frente ao mal, ou seja, quando e como agir e se é propício agir, pois muitas vezes deve-se, simplesmente, deixar as coisas seguirem o seu próprio fluxo, sem qualquer interferência. Sabe-se que com relação ao mal se enfrentará um paradoxo, pode se reagir a ele ora de uma maneira ora de outra. Não há apenas uma resposta ou atitude única e correta. Pode ser que se tenha que fugir, ou quem sabe enfrentá-la com o Eros, ou talvez ludibriá-la, ou talvez lutar corpo a corpo, ou até mesmo travar uma batalha mágica. Através dos contos de fada, nota-se que a Ânima ou o princípio feminino (Eros) é um forte aliado contra o Mal, que evita o confronto direto e faz com que sejam utilizados recursos do inconsciente durante a jornada. Esta jornada deve ser gradual, exigindo que o Ego vá se fortalecendo a medida em que caminha rumo ao desfecho. Via de regra, o confronto se dá de maneira amorosamente inteligente, ou, totalmente inocente e pura, ou seja, sem um propósito deliberado do Ego, pois se este atuar deliberadamente estará atuando sob a bandeira do poder!

Em seu livro "Homem", Johnson, ao analisar os três níveis da consciência masculina, o faz apresentando três obras literárias, a saber: Dom Quixote de Cervantes, Hamlet de Shakespeare, e, Fausto de Goethe. Um dos aspectos interessantes apontados por ele é como cada um deles lidou com sua Sombra. A forma mais dramática foi a de Hamlet, que o levou a destruição como, também, a todos que o cercavam, pois não incorporou sua Sombra no seu processo de vida. Já Fausto fez o acordo mais acertado. No conflito Ego - Sombra, ambos devem se temperar e se restaurarem, e não competir para saber quem deve prevalecer e quem deve sucumbir. O Ego deve abandonar sua luta pelo poder, soberba, orgulho). Fausto (Ego) e Mefistófeles (Sombra) devem ser redimidos. Há, como diz Johnson, uma faustinização de Mefistófeles e a mefistofelização de Fausto. E ambos são redimidos pelo Amor e Bondade (que são aspectos do princípio feminino) e não por justiça ou lei (aspectos do princípio masculino).

Em psicoterapia, portanto, não é adequado expor abertamente os conteúdos sombrios para o cliente. Deve-se esperar que a sabedoria interior se manifeste através, principalmente, dos sonhos, ou de associações livres ou de outra técnica expressiva. Deve-se ter paciência e prudência ao se lidar com os aspectos sombrios, e, esta conduta deverá ser transmitida ao cliente, de maneira, a seguir o curso natural do processo. A necessidade de apressar o processo torna-se perigosa, pois evoca a displicência, a perda do bom senso, a perda do enquadre dos fatos, apressa-se a descida aos reinos infernais e, consequentemente, a derrocada da missão. Pode-se ficar preso por lá, possuído pelo Mal, por uma Ânima ou Ânimus negativo e poderoso e, assim, tumultuar, impedir ou travar o caminho para a Individuação.

É importante acolher amorosamente os aspectos sombrios do cliente. Usar mais o Eros que o Logos, mais o Amor que a Estratégia. Isto faltou a Dorian Gray!

O Mal é um aspecto extremamente sedutor, e todo o cuidado é pouco. Ele é bem caracterizado nas disputas pelo poder, e faz uso da vaidade. Este aspecto está descrito de maneira criativa e inteligente num filme recente (estreou nos cinemas em janeiro deste ano de 1999): "Advogado do Diabo", filme de Taylor Hackford e estrelado por Al Pacino e Keanu Reeves. No final, observa-se que o jovem advogado não tem saída, está preso à vaidade e este é seu vínculo com o Diabo. Ele tentou enfrentar diretamente o Diabo com seu Logos, e perdeu! Como perderia qualquer Ego que tentasse desafiar diretamente o plano Arquetípico.

            Hoje, quando a tradição oral está praticamente em desuso, pode-se utilizar as produções cinematográficas e os best-sellers para transmitir o mesmo que os contos de fada, pois seriam as versões atuais e modernas do simbolismo existente no inconsciente. As versões dos Estúdios Disney calam mais fundo que as versões originais, tais como a Bela e a Fera, pois estão mais  de acordo com a progressão histórica do inconsciente. Na virada do século e do milênio, onde a era da cibernética está a todo vapor, onde a velocidade e a pressa de se chegar a algum lugar ou momento é desmedida, pode-se estar dando mais chances ao Diabo do que se dava em períodos mais remotos. Segundo von Franz, Jung apreciava um dito alquímico: "Toda pressa é do demônio". (von FRANZ, 1985, p. 348).

 

Capítulo VI. CONCLUSÕES

 

                                                  "Algun dia

                                                   En cualquier parte

                                                  Has de encontrarte contigo mismo

                                                  Y solo de ti depende

                                                  Que sea la más amarga de tus horas

                                                  O tu momento mejor."

                                                                        M. de Combi

 

            Espero através deste trabalho ter demonstrado a relevância do estudo e compreensão dos aspectos sombrios da personalidade que tanto interferem e, ao mesmo tempo, são imprescindíveis no processo de Individuação. Sem a consciência e integração dos mesmos não se pode falar em Individuação, pois se estaria diante de uma personalidade cindida, ora pendente a supremacia do Ego ora desumanizada pela Sombra.

Na Sombra encontra-se o não vivido e, ao mesmo tempo, um vir-a-ser. Cabe, ao processo terapêutico enfatizar a Sombra, de maneira amorosa, abstendo-se das funções judicativas, permitindo que a mesma se apresente e encontre na função transcendente a sua viabilidade.

E, o romance O Retrato de Dorian Gray se revela um instrumento para que o analisando possa compreender a não integração da Sombra e suas implicações. Perceber e refletir que não é em se negando seus aspectos sombrios que se poderá conquistar sua inteireza e buscar a Individuação. Que não é através do Logos que se chega a redenção, e sim do Eros.

Embora o enfoque do trabalho seja a Sombra, torna-se claro que não se pode excluir outras instâncias psíquicas ou outros arquétipos, e isto é uma das características da psicologia junguiana, ou seja, é praticamente impossível observa-se um indivíduo sob um único aspecto, uma única ótica. O indivíduo é um diamante multifacetado, é único, é todo.

"Jung critica a Igreja por negligenciar a incumbência de lidar com o mal. Tendo a Igreja recusado a tarefa, esta caiu nas mãos da alquimia, e hoje nas da psicologia para que complete o trabalho." (SANFORD, 1988, p.183). A crítica é feita à Igreja Católica, e não só por negligenciar o trabalho com o mal mas, também por desenvolver a doutrina da "Privatio Boni", a que se refere no livro AION, referindo-se ao Mal como a ausência do Bem, ou seja, suprimindo o Mal. Dessa forma impede a conscientização do mal e, consequentemente, sua integração. Nessa doutrina o Mal não existe concretamente, apenas substancialmente no homem, pois Deus é só o Bem, nega-se sua polaridade. Não se aceita a idéia de que o Mal também seria obra de Deus. Mas sendo Deus o todo e real, ele só poderia ser constituído pelos pares opostos, no caso, Bem e Mal. Então, o mal surge como um antagonista a Jesus Cristo, na figura do Anticristo. Mas como SANFORD (1988), relata  o próprio Jung, no princípio, teve uma impressão semelhante à da doutrina da "privatio boni", referindo-se à Deus como sendo amor.

Portanto, a psicologia e o trabalho psicoterapêutico, atualmente, são os instrumentos disponíveis para se lidar com o mal, e por que não afirmar que a Psicologia Junguiana seria uma de suas melhores indicações? Diz-se em tom de piada que um cliente de abordagem junguiana e outro de abordagem freudiana se encontraram, e o segundo diz ao primeiro: "acabei com meus demônios e com meus anjos", ao que o primeiro responde: "pois é, eu aprendi a conviver com os dois". Entretanto, von Franz (1992, p. 23) conta um episódio muito semelhante com relação a um de seus clientes.

Mas é certo que o Mal está aí. Ele existe na forma de demônios internos. Eles precisam ser ouvidos e integrados para que, não só o indivíduo mas a sociedade como um todo possa trilhar caminhos mais luminosos rumo à Individuação. Se cada indivíduo redimisse sua Sombra a sociedade inteira ganharia, pois teria-se menos projeções violentas e destrutivas como as que são diariamente divulgadas pela imprensa. Aparentemente, mas só aparentemente, a violência que se assiste diariamente através dos meios de comunicação, não tem sentido. Alguns comentaristas até se aproximam da verdade quando dizem que estas pessoas violentas, criminosas, destrutivas não podem ser chamadas de humanas. É que elas estão tão próximas de forças arquetípicas desconhecidas e poderosas, e com egos tão fragilizados e vulneráveis que se deixaram conduzir por seus aspectos sombrios.

Neste final de século e milênio, várias doutrinas esperam a chegada de um Mal maior com a atuação do Anticristo. Observa-se na mídia a exacerbação do Mal, com tanta violência indiscriminada produzida por aqueles que se deixaram possuir pelo Mal, seja pela falta de estrutura familiar ou pela rigidez nessa estrutura; pela ausência de uma doutrina religiosa ou por uma doutrina que libere tal energia, tais como as que fazem uso de drogas alucinógenas para um contato com o divino, ou simplesmente pela atitude de se continuar negando o Mal em si mesmo e, consequentemente, projetando-o e o alimentando-o no outro. Encontra-se um paradoxo tanto ao incitar-se os aspectos sombrios como para se lidar com os mesmos.

A relação entre a Persona e a Sombra, que observou-se entre Dorian e seu retrato, com um Ego vulnerável e pouco coeso, buscando enfatizar o exterior ao interior é um fato indiscutível, e é uma das características da atual sociedade, onde personagens ilustres se apresentam com faces bondosas e ingênuas alegando que foram usados como bodes expiatórios ou "testas de ferro" por pessoas malvadas e malignas.

Como mencionado no capítulo anterior, o uso de obras literárias tidas como best-sellers, como a escolhida para este trabalho ou uma obra cinematográfica poderá ser um instrumento de grande valia como procedimento psicoterapêutico. Eu, particularmente, os uso em grande escala. À partir do relato de um filme ou obra literária que marcou o cliente torna-se possível, através de associações livres, levá-lo a alcançar níveis de conscientização a respeito de si mesmo muito enriquecedores. Como também, à partir de um relato vivencial do cliente, lhe ser sugerido assistir um determinado filme ou ler uma determinada obra literária que possa mobilizar certas energias. E, principalmente, de maneira muito sutil, dar voz à Sombra.

É importante repetir que atualmente, a tradição oral, isto é, contar histórias ou contos de fada, é algo quase em desuso. Os chamados "pais modernos" acreditam que isso é uma atividade improdutiva pois levaria a criança a processos fantasiosos inúteis, à crenças ilusórias que impediriam seu maior contato com a realidade. Hoje, apenas crianças em tenra idade crêem em Papai Noel ou no Coelho da Páscoa. Por volta dos 4 anos, elas são destituídas desses  dois símbolos do inconsciente coletivo. O que dizer dos contos de fada já que se está na era da cibernética? Deve-se respeitar e aclamar os Estúdios Disney por utilizarem o que há de mais moderno em recursos nos temas arquetípicos, atuando não apenas sobre os processos psicológicos da criança como também no adulto.

Mas não se pode incentivar apenas as idas ao cinema ou a uma vídeo locadora, visto que este tipo de arte traz, em si, uma nova roupagem, uma nova visão, uma nova perspectiva, que lhe é dada pelos produtores ¾ a visão do autor da obra é modificada pelos produtores e diretores. Portanto, deve-se incentivar a população brasileira a ter o hábito da leitura e a refletir acerca dos atos dos personagens e do desfecho das histórias, e com isso ajudá-la a desenvolver um aspecto que ficou à desejar em nosso país: a crítica.

Poderá ser constatado em muitas obras "pactos implícitos" com o mal, além dos propriamente explícitos; todos os pecados e todas as virtudes, além dos desfechos das ações e suas conseqüências. Aspectos importantes, portanto, ao repertório psíquico de cada indivíduo. Símbolos para que o inconsciente se expresse e se dirija ao processo de Individuação.

 Todos podem fazer pacto com o "Diabo" (representação de todo pecado e de todo mal), ou seja, ser conivente com a própria Sombra. Porém, seu efeito será sempre imprevisível. Geralmente, o Ego é perturbado, perde coesão e acaba por ser arrasado/arrasante. Este "pacto" pode ser resolvido apenas por um Ego forte, bem estruturado, coeso, que reconheça seus limites e esteja enraizado e comprometido com um processo de integração e integridade. Um Ego em busca do Todo. Operante no dinamismo psicológico da Alteridade. Ou seja, regido pelos Arquétipos Ânima/Ânimus, sempre visando o Todo. Contextualizado. E, assim mesmo, Deo Concedente!

Com este trabalho espero ter lançado uma semente para outros estudos, através da perspectiva junguiana, com respeito a outras obras literárias ou cinematográficas, além de que esta mesma seja mais explorada e até mesmo complementada.

Tendo concluído meu trabalho, com certeza, não esgotei o tema, pois todo fim é em si uma centelha para um novo começar!

 

                                               "Vocatus at que non Vocatus, Deus Aderit!"

                                                           Carl Gustav Jung

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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