Esta é uma pergunta frequente dirigida a um analista, tanto por pacientes quanto por aqueles que se encontram em formação. À primeira vista, a resposta pode parecer simples, mas ela envolve uma dimensão de grande profundidade.
Uma formação consistente em Psicologia é, naturalmente, fundamental. Entretanto, ela não é suficiente por si só. Para o desenvolvimento de um analista, são indispensáveis três pilares tradicionalmente conhecidos como o tripé da formação clínica: teoria, análise pessoal e supervisão.
No campo da psicologia analítica, a análise pessoal ocupa um lugar central. É por meio dela que o futuro analista entra em contato com o próprio inconsciente, reconhecendo os complexos que o habitam e as imagens arquetípicas que podem se constelar em sua vida psíquica. Aquilo que permanece inconsciente tende a se manifestar na relação analítica sob a forma de projeções. Por essa razão, o autoconhecimento não é apenas desejável — é uma condição essencial para o exercício da clínica.
Tomemos como exemplo a constelação do arquétipo do curador associada a um complexo materno. Nesse caso, a imagem da Grande Mãe pode adquirir grande força na psique do analista. Ele pode então identificar-se com a fantasia de ser aquele que deve curar, proteger ou salvar. Embora tal atitude costume nascer de uma motivação genuína de cuidado, ela pode interferir no processo analítico, deslocando seu centro. Na psicologia analítica, compreende-se que o verdadeiro agente de transformação é o próprio processo psíquico do paciente. A função do analista é sustentar o espaço em que esse processo pode acontecer.
Também é importante considerar os momentos da própria vida. Há fases em que determinadas tarefas psíquicas exigem mais energia e presença. Uma mulher cujo movimento interno esteja voltado para a maternidade, por exemplo, sabe que grande parte de sua disponibilidade estará naturalmente direcionada ao cuidado do filho. Em situações como essa, pode ser mais adequado prolongar o período de formação antes de iniciar a prática clínica de forma plena.
Outro aspecto essencial da formação junguiana é a atenção aos sonhos. Para Jung, o sonho é uma manifestação espontânea do inconsciente que traz à consciência algo ainda desconhecido. Por meio das associações e do método de amplificação simbólica, seus significados podem gradualmente emergir. Quando o estudante vivencia esse processo em sua própria análise, compreende a importância do estudo da simbologia, dos mitos e das imagens arquetípicas. Esse repertório torna-se uma ferramenta importante para acompanhar o paciente na exploração de seus próprios símbolos.
O futuro analista também precisa familiarizar-se com a tipologia psicológica descrita por Jung. As quatro funções da consciência — pensamento, sentimento, sensação e intuição — estruturam nossa forma de perceber e interpretar o mundo. Reconhecer quais funções são mais desenvolvidas e quais permanecem menos diferenciadas é fundamental, pois é justamente nessas regiões menos conscientes que costumam surgir nossos pontos cegos. A supervisão clínica torna-se, então, um espaço essencial para refletir sobre o trabalho e ampliar a própria consciência.
Aquele que nunca teve acesso às profundezas do próprio inconsciente dificilmente conseguirá sustentar, diante do sofrimento psíquico do outro, uma atitude de verdadeira compreensão. Sem essa experiência, corre-se o risco de trabalhar apenas de forma técnica, distante da realidade viva da alma humana. A empatia, nesse contexto, não significa sentir exatamente o que o outro sente, mas ser capaz de compreender, em profundidade, a experiência psíquica do paciente.
É nesse sentido que se pode compreender o arquétipo do médico-ferido. O sofrimento vivido e elaborado pelo próprio analista pode tornar-se uma via de acesso à compreensão do sofrimento alheio. No entanto, como acontece com todos os arquétipos, também aqui existe um aspecto sombrio. Ele se manifesta quando o analista se identifica com uma posição de poder, acreditando saber, de maneira absoluta, o que é melhor para o paciente — e, por vezes, levando o próprio paciente a acreditar nisso.
O processo analítico, tanto para o paciente quanto para o futuro analista, envolve uma transformação profunda. Trata-se de um movimento gradual de dissolução de identificações e características inautênticas, permitindo que emerja uma personalidade mais integrada. A esse processo Jung deu o nome de individuação: o caminho pelo qual o indivíduo se torna aquilo que, em essência, é.
Tornar-se analista, portanto, não significa apenas adquirir conhecimento teórico ou dominar uma técnica. Significa comprometer-se com um processo contínuo de autoconhecimento e manter viva a relação com o próprio inconsciente. A análise pessoal e a supervisão constante — especialmente no início da prática clínica — permanecem como fundamentos indispensáveis para o exercício responsável da função analítica.
LASHERAS, Anyara Menezes. A VIOLÊNCIA EMOCIONAL - sutil, devastadora e silenciosa. In: Amorim, Sandra e Neumann, Marcelo Moreira (Org). A VIOLÊNCIA NA CONTEMPORANEIDADE: o olhar da psicologia Junguiana. 1ªed. Curitiba, PR: CRV, 2015. p. 241 a 253
"O mal é comum, e sempre humano. Divide nossa cama... e come em nossa mesa."
Wystan Hugh Auden (poeta)
Fala-se muito em violência, e a palavra violência costuma remeter a atos de extrema agressão e torturas físicas. Entretanto essa palavra possui um espectro, uma representação das amplitudes ou intensidades, muito vastas, podendo ocorrer de maneira subliminar e devastar o psiquismo da vítima até o grau de levá-la a morte.
Esta modalidade de violência é, por vezes, muito difícil de ser observada e combatida. Ela é tão próxima e íntima da vítima, normalmente partindo de familiares, amigos e grupos sociais, provocando grande destruição emocional.
Os relacionamentos disfuncionais estão muitas vezes recheados de conteúdo emocional violento e são vividos dentro de ambientes que, teoricamente implicariam em proteção e segurança: os lares.
Este tipo de violência acaba sendo vivido em silêncio, sob um disfarce dificilmente detectável. Destrutivo sem deixar marcas físicas, passando despercebido muitas vezes, dos que convivem com a vítima.
A violência emocional é a forma de violência com a qual nós, psicólogos, nos deparamos diariamente nos consultórios. E, nos pacientes que as relatam observamos que, como consequência, eles continuam muitas vezes, aplicando a si mesmos a mesma violência, perpetuando as dores e sofrimento. Uma Via Crúcis interminável.
É usual atribuir-se à própria vítima a responsabilidade pela violência sofrida. Por essa razão muitos não tomam qualquer atitude, tendem a aceitar sua participação e mantém seus sofrimentos. A autoestima fica tão prejudicada que a vítima acredita ser merecedora de tudo que está sofrendo -- esta é uma das muitas respostas neuróticas da vítima: se sentir responsável pelo que sofre.
A violência é a resposta de uma pessoa profundamente insegura e, que através de comportamentos destrutivos consegue humilhar e inferiorizar a vítima, o que costuma proporcionar ao agressor a sensação de poder, controle e domínio na intimidação da vítima. O agressor acaba por sequestrar a alma da vítima e a mantém em cativeiro sórdido.
São tantas as maneiras de se violentar emocionalmente alguém que não caberiam neste capítulo. Por isso descrever-se-á algumas dessas formas e de suas consequências e desdobramentos.
As formas de violência abordadas neste capítulo estão vinculadas ao abandono, ao descaso, ao descuido, ao desprezo, à ironia e sarcasmo, e, ao assédio moral, vivenciados no lar e no ambiente laborativo.
No consultório costumo usar, como técnica − para fazer aflorar sentimentos e emoções − filmes e animações que inspirem o reconhecimento das agressões sofridas e as soluções encontradas pelos personagens. Afinal, fundamentando-me na teoria junguiana, os contos e os mitos demonstram esta finalidade: evidenciar que não se é o único que experimenta algum tipo de vivência e buscar no reservatório maravilhoso do inconsciente as respostas para um drama existencial. E quando um autor escreve sua história ficcional nada mais está fazendo do que escrever sobre o momento histórico de uma cultura, de uma sociedade, de um grupo social.
Então, escolhi três obras cinematográficas para trabalhar sobre violência emocional: “Como treinar o seu dragão”, “Meu malvado favorito” e “O diabo veste Prada”, para discorrerem sobre a violência emocional causada pelas figuras parentais e no ambiente de trabalho.
“Eu abjeto a violência, pois quando ela parece fazer o bem, o bem é temporário. O mal que ela faz é permanente.”
Mahatma Gandhi
A violência psicológica é entendida como qualquer conduta, seja por ação ou omissão, destinada a degradar ou controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões de outra pessoa por meio de intimidação, manipulação, ameaça direta ou indireta, rejeição, perseguição, agressões verbais, insultos, chantagem, depreciação, discriminação, humilhação, ridicularização, isolamento, exigências incompatíveis ou qualquer outra conduta que implique em prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação ou ao desenvolvimento do caráter e da personalidade.
Foi através do ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente[1] e da Lei Maria da Penha[2] que os crimes de violência psicológicos demonstraram sua frequência e seus resultados assustadores a ponto de ser necessária sua divulgação e penalização.
A violência emocional sempre existiu desde os tempos imemoriais, pois a violência é uma característica humana, demasiadamente humana como diria Nietzsche. Mesmo que a observemos através dos tempos sua atuação não apresenta alterações e variações significativas, nem mesmo com o advento das redes sociais que a tornou menos privativa, e, dissemina-a como uma grande peste. Portanto o que mudou foi o meio de propagação, mas seu conteúdo permanece o mesmo.
A violência emocional é praticada por indivíduos inseguros, que normalmente também sofreram violência física ou emocional, que se identificaram com seus agressores – similar a Síndrome de Estocolmo[3], e passam a repetir o padrão de comportamento abusivo sofrido, e normalmente até com maior agressividade para demonstrarem o próprio poder. A vítima, de qualquer forma de violência, se vê fragilizada, vulnerável e subjugada por seu agressor. Quando a violência cessa tende a desenvolver inconscientemente uma armadura contra aquele sofrimento, e, por associar a submissão à violência desenvolve o comportamento contrário, ou seja, para se sentir forte e poderoso lança mão de ações, atitudes e comportamentos agressivos.
As pessoas violentas geralmente agem assim quando diante de pessoas indefesas quer por idade, compleição física, hierarquia, sexo, etc. Na maioria das vezes, acreditam que estão absolutamente certas e estão praticando ações educativas ou corretivas. Como o ser humano tende a demonizar o que desconhece e tudo que está fora dele, implicando em que ele é o portador do que é bom, do bem, do que é justo e certo, ele buscará um bode expiatório para despejar seus males sobre este. Trata-se do mecanismo de projeção. E o que se costuma projetar no outro com mais frequência?
A sombra.
“A pessoa, muitas vezes, encontra o seu destino no caminho que tomou para evita-lo.”
Jean de La Fontaine
Jung dividiu a psique em consciente e inconsciente. O inconsciente encontra-se dividido em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo e impessoal. No primeiro, o inconsciente pessoal, encontramos as experiências vividas e que deixamos para trás, que não mais nos recordamos, e, características que não aprovamos em nós mesmos. Já o inconsciente coletivo ou impessoal carrega as experiências imemoráveis dos homens na face da terra. São os impulsos, os instintos, as respostas naturais do homem desde seus mais primitivos ancestrais. Aqui residem os arquétipos: as possibilidades herdadas, a base psíquica comum a todos os seres humanos.
A sombra, como Jung a postulou, é um arquétipo que também apresenta seu lado pessoal e seu lado coletivo. Na instância coletiva ou impessoal a encontrar-se-ia a raiz do mal, e principalmente aqueles impulsos que levam às guerras, a atos de violência sem sentido; já na instância pessoal estariam os chamados comportamentos destrutivos e agressivos pertencentes à memória do indivíduo, de suas experiências desde o nascimento.
A sombra é uma espessa massa de componentes diversas, aglomerando desde pequenas fraquezas, aspectos imaturos ou inferiores, complexos reprimidos, até forças verdadeiramente maléficas, negrumes assustadores. Mas também na sombra poderão ser discernidos traços positivos: qualidades valiosas que não se desenvolveram devido a condições externas desfavoráveis ou porque o indivíduo não dispôs de energia suficiente para leva-las adiante, quando isso exigisse ultrapassar convenções vulgares. (Silveira, 1988, p. 92)
Já Whitmont nos fala sobre a sombra de uma maneira que vem a complementar a citada por Silveira:
O termo sombra refere-se à parte da personalidade que foi reprimida em beneficio do ego ideal. Como tudo o que é inconsciente é projetado, encontramos a sombra na projeção - em nossa visão da "outra pessoa". Como figura dos sonhos e fantasias, a sombra representa o inconsciente pessoal. Ela é como uma combinação das cascas pessoais dos nossos complexos e, portanto, o limiar de todas as experiências transpessoais
Na prática, é comum a sombra aparecer como uma personalidade inferior. Contudo, sempre pode haver uma sombra positiva que surge quando apresentamos a tendência de nos identificar com nossas qualidades negativas e reprimir as positivas. (Whitmont, 2004, p. 144)
A sombra é um elemento natural na psique humana, pois participa diretamente do processo de formação e desenvolvimento do ego. Segundo (Whitmont, 2004) a sombra pode ser projetada num indivíduo ou grupo, isto é, quando atribuímos às pessoas ou a um grupo social o mal que se sofre; e de maneira coletiva quando se fala do demônio como a origem de todo o mal. Querendo ou não a sombra é parte de nós e deverá ser encarada, pois jamais será eliminada, ou seja, podemos lidar com vários aspectos sombrios que interferem no nosso cotidiano, mas eliminar a instância sombra não será possível, tendo em vista que sempre surgirão novos conflitos entre o indivíduo e a coletividade que é um elemento formador de aspectos sombrios em nosso psiquismo.
Já GUGGENBÜHL-CRAIG (1978) se refere a três estruturas inter-relacionadas no que se denomina a sombra: a sombra pessoal, a coletiva e a arquetípica. Na sombra pessoal encontramos conteúdos que dizem respeito às vivências pessoais tidas como negativas; na sombra coletiva encontramos os conteúdos considerados inaceitáveis num determinado meio cultural; e a sombra arquetípica na qual reside simplesmente o Mal, o criminoso e assassino que vive em nós, e para muitos o Diabo.
Há quem finja que a sombra não existe, mas ela está lá desafiando-nos a aceitá-la. Essa aceitação implica em sua conscientização e depois no trabalho de sua elaboração e correção. Ninguém está fadado a sofrer eternamente em consequência de seus aspectos sombrios, exceto se desejar afastar-se de seus aspectos sombrios através do uso de sua força de vontade do tipo “querer é poder”. No entanto, não se trata de uma guerra nem de algo que deva ser combatido, pois isso só os conduziria mais ao fundo no inconsciente o que aumentaria sua energia – como se estivéssemos alimentando os monstros e demônios --, e com isso eles seriam projetados no mundo exterior. Os aspectos sombrios projetados são sempre os que estão inconscientes. Portanto os aspectos sombrios devem ser elaborados para diminuir sua energia e autonomia sobre a vida consciente e, consequentemente, não serem projetados implicando em grandes conflitos de relacionamento pessoal e social.
A sombra pessoal atua de modo destrutivo em relação aos ideais do ego, assim como a coletiva procura destruir ideais que se situam no mesmo nível. Mas essas duas sombras exercem também uma função muito valiosa. Tanto o ego como os ideais coletivos devem sujeitar-se a constantes ataques, pois eles são falsos e unilaterais. Não fossem eles consumidos pelas profundezas da alma humana, não haveria desenvolvimento individual nem coletivo. (GUGGENBÜHL-CRAIG, 1978, p. 118)
“Às vezes lugares humanos criam monstros desumanos.”
Stephen King
O relacionamento entre pais – pai e mãe – e filhos é um relacionamento arquetípico, sendo uma forma intrínseca de comportamento humano. Geralmente espera-se um relacionamento que supra as necessidades básicas biológicas, sociais e emocionais. Mas, mesmo no modelo arquetípico das relações parentais, também encontramos as figuras da Mãe Bruxa e do Pai Ogro, que nos revelam o lado obscuro e sinistro dessas figuras.
Quando a figura materna ou paterna propicia a formação de aspectos sombrios na psique da criança, ela o faz impregnando aquele pequeno ser de ideias negativas a respeito de si mesmo, minando todas as iniciativas que aquela criança possa ter de maneira espontânea. Deve prevalecer tudo aquilo que as figuras parentais consideram um ideal a ser atingido. Sendo assim, toda e qualquer tentativa da criança em descobrir novos caminhos, ter novos sonhos não inspirados nas expectativas dos seus genitores serão drasticamente combatidos.
Isto é uma traição àquela alma infantil que veio ao mundo para cumprir o seu próprio destino e não ao dos pais, e, um ato de violência à psique, provocando traumas que condenarão a vida daquela criança podendo levá-la ao fracasso, a uma sensação de frustração e vazio, a um comportamento destrutivo e/ou criminoso, e, a uma falsa identificação com aspectos sombrios.
Esse tipo de violência ocorre no interior do lar perpetrada por aqueles que deveriam garantir o bem estar e a segurança, ensinar o respeito, o autorespeito e a desenvolver a confiança em si, mas o que fazem é exatamente o oposto. É um relacionamento que se baseia no poder, então ao invés de se ter um relacionamento de um ser humano para com outro ser humano, temos um relacionamento de ser humano para um objeto. A criança é apenas um objeto, uma marionete nas mãos de seus progenitores. Estes fazem com que a criança se veja como um ser desprezível e incapaz de qualquer realização. As falas parentais são de conteúdo exacerbadamente crítico, desvalorizando, denegrindo e invalidando a criança. Com uma autoimagem negativa e uma baixa autoestima a criança cresce e tenta sobreviver no mundo. Algumas, à custa de muito sofrimento, conseguem se desenvolver e atingir alguns objetivos. Outras se perdem totalmente e, como que amaldiçoados, confirmam o destino que lhes foi predestinado pelos pais.
É interessante o conteúdo da obra de Johnson e Ruhl (JOHNSON & Ruhl, 2010) que revela o quanto os seres humanos são influenciados pelos sonhos e anseios de seus pais, e o quanto são dirigidos a realizar aquilo que seus pais não conseguiram e se sentiram frustrados. E o quanto os filhos se sentem fracassados ao chegarem à meia-idade, muitas vezes com crise de depressão. Contudo podem resolver esse conflito existencial assumindo daí para frente seu próprio destino no processo de individuação.[4]
Então, vamos fazer uma reflexão a partir disso: as mães bruxas e os pais ogros devem ser indivíduos que, além de frustrados em seus anseios pessoais por seus pais e/ou pela sociedade, foram submetidos a igual ou maior violência emocional que os cindiram psiquicamente e os transformaram em monstros, ou seja, disfuncionais em seus papéis, insensíveis e sem qualquer empatia com relação aos seus próprios filhos.
Como nos consultórios estamos mais familiarizados com a análise voltada para a sombra pessoal e para a sombra coletiva, raramente analisamos a relação do problema com a sombra arquetípica: será que estas mães bruxas e pais ogros se identificaram com o Mal? Não possuíam estrutura emocional suficiente para manter seus egos distanciados de um arquétipo tão poderoso e destrutivo? E, dependendo da distância entre o ego e a sombra arquetípica, encontraremos variados graus de violência e destruição, partindo-se da agressão verbal até ao homicídio.
“Crianças começam amando os pais. Ao crescerem, os julgam. E às vezes os perdoam.”
Oscar Wilde
Sabe-se que as crianças absorvem e se identificam com seu ambiente e com seus pais. Há uma fusão entre as psiques parentais e a psique de seus filhos e boa parte da comunicação entre eles acontece através de processos inconscientes. As crianças sabem das dificuldades de seus pais, embora possam não assimilá-las integralmente. Eles, pais, constelam em si grandes expectativas por parte dos filhos. São heróis e heroínas que os livrarão dos desconfortos e os protegerão. Mas e quando isto não ocorre, ou seja, quando aqueles que deveriam proteger são os que causam o sofrimento e traumatizam?
Evidentemente não se espera que os pais sejam perfeitos, que no papel de auxiliadores do desenvolvimento funcional dos filhos não possam causar dor e sofrimento indispensáveis à formação daquele ser, como por exemplo, colocar limites, dizer não, atitudes que são sentidas como dolorosas pela criança. Mas há a possibilidade de que pais que desconhecem a si próprios, suas dores, feridas e frustrações projetem em seus filhos seus aspectos sóbrios, transformando-os em bodes expiatórios.
Esta é a maneira mais devastadora de violência emocional, pois atinge um ser em formação, em desenvolvimento, e, que ainda não tem ao seu dispor estrutura e ferramentas para defender-se. As crianças são submetidas a uma tortura e tormento constantes, que pouco a pouco, vão conduzindo a formação de uma autoimagem, de um autoconceito totalmente distorcido do que são na realidade. Desaprendem a confiar e a amar a si mesmas. Acreditam que por mais que tentem, que se esforcem, jamais serão aprovadas dentro de casa. E se considerarmos que seu lar seja seu microcosmo, no macrocosmo – a escola, o trabalho, as relações -- nada será diferente.
As crianças vão crescendo com essas marcas em sua alma. Algumas, apesar dos ferimentos, conseguirão sobrepuja-los e seguirão seu destino. Outras buscarão maneiras de lutar contra essas fissuras associando-se ao lado mal da vida, isto é, se foram asseguradas como indivíduos disfuncionais encontrarão seus iguais não apenas para ter um grupo que o apoie, mas para tentar sobressair-se com esses atributos negativos.
"Nada é tão comum, como o desejo de ser extraordinário."
William Shakespeare
Hoje encontramos vasto material sobre estudos e pesquisas relativos à violência emocional no ambiente de trabalho, caracterizada pelo abuso do poder mediante o assédio moral, e, às inúmeras reuniões e palestras que discorrem sobre “motivação” e “histórias de superação”, todas encobrindo a real objetivação: fazer com que os funcionários atinjam metas sabidamente absurdas.
Na tentativa de comover os ouvintes são utilizadas inúmeras técnicas do que eu chamaria de “psicologia reversa”[5]
Segundo o historiador Leandro Karnal[6] o empreendedorismo é considerado a terceira teologia contemporânea – a primeira é a autoajuda, a segunda é a da prosperidade --, que nasceu nos Estados Unidos, com a divisão entre “winners X losers” (vencedores X perdedores); essa teologia traz para dentro do indivíduo a censura: “se eu fracassei, a culpa é minha”. Como consequência nos leva a acreditar que ‘o sucesso é minha responsabilidade e o fracasso é minha culpa’. O empreendedorismo como processo cobra coragem, ousadia, autoestima e iniciativa, pois são estas características que fazem parte do indivíduo vitorioso. O novo homem que atinge a “salvação” não é mais uma figura religiosa, mas sim o empreendedor. Ele é o modelo de uma teologia da matéria, na qual o inferno é o fracasso financeiro e pessoal. E ter sucesso virou um delírio, e para isso há livros e treinadores pessoais (coacher) que ficam repetindo que você precisa confiar em você, você precisa ter metas, você precisa se desenvolver, precisa parecer feliz. Se conseguir atingir esses atributos você será um vencedor, caso contrário...
Então, é a partir dessa crença que ocorrem os abusos de poder ou o assédio moral entre patrão e empregado, entre chefes e subordinados. Aqui começa a violência emocional corporativa. Os indivíduos são constantemente levados a participarem de reuniões inúteis que escondem seu real propósito: conduzir os ouvintes a superarem seus limites, a responsabilizá-los pelo baixo lucro da empresa ou pelos lucros não terem aumentado, por não estarem motivados e nem motivando a equipe.
Algumas empresas ainda custeiam palestras e cursos motivacionais e de superação, onde quem ganha são os palestrantes que vendem a ideia de fórmulas mágicas para se alcançar o sucesso. De início, a maioria sai com a ideia de que será fácil, para tanto basta que coloquem tudo aquilo em prática, o que vai ocorrer por uma ou duas semanas. Após esse período tudo voltará ao que era antes, tendo em vista que os resultados não vão aparecer e que não é nada fácil mudar um paradigma em curto prazo. Não basta o “eu quero” para atingir um objetivo que não dependa só de mim, que depende de colegas, do mercado, da própria empresa e do momento do mercado. Então, como não se atingirá os resultados desejáveis o sujeito vai acreditar que a culpa é dele, que ele fracassou, e, o pior, por uma enorme autorreferência, vai acreditar que ele é um fracasso. E o que era para garantir o seu sucesso, se torna sofrimento e derrota.
Aqueles que ocupam cargos de chefia são os que mais assolam os demais, tendo em vista que desejam, no mínimo, manterem suas posições e funções, e, ao mesmo tempo sabem que se obtiverem resultados superiores as metas estabelecidas, poderão alcançar funções ainda maiores. E, são estes que provocarão danos emocionais praticando uma série de atos violentos, tais como: gritos; censuras constantes; deboches; ridicularização; exposição desnecessária; comparações; redefinindo inúmeras vezes o que é prioridade, ou seja, solicita o cumprimento de alguma tarefa e, mesmo antes dela ser finalizada, solicita-se que pare com aquela e inicie outra. Tudo isso leva a um estresse muito grande e dependendo da estrutura emocional do indivíduo há uma fratura na autoimagem do sujeito. Ele se vê um fracasso como profissional e consequentemente como pessoa, pois, como referido acima, sucesso profissional equivale a sucesso pessoal. A pessoa vai para casa e se sente fracassada nos seus papeis de marido / esposa, pai / mãe ou como filho (a). Seus entes queridos sempre cobraram uma maior participação nas atividades familiares, que ele ou ela relegaram ao segundo plano. Dispendeu tanto tempo e energia para ter sucesso, deixou de lado sua família e não obteve o que desejava, e, ainda, se distanciou de todos que poderiam lhe apoiar. Esqueceu-se de seus próprios sonhos para sonhar em apenas obter sucesso.
É evidente que todo ser humano quer se destacar e obter sucesso. Mas o que é ter sucesso? Ter um ganho mensal de 40 mil reais? Comprar uma mansão e carros de luxo? Viajar duas ou três vezes por ano para o exterior? Cada um terá que perguntar a si mesmo o que é ter sucesso para não enveredar nos sonhos alheios, e, para não ter uma depressão importante anos depois por terem se distanciado demais de seus próprios sonhos e descobrirem que perderam tempo e energia, no mínimo, empreendendo sonhos de outrem.
“Contos de fadas não dizem às crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões existem. Contos de fadas dizem que dragões podem ser mortos."
Gilbert Keith Chesterton
"O homem saudável não tortura os outros, geralmente o torturado torna-se o torturador."
Carl Gustav Jung
Esta é a história do Sr. Gru que disputa com o jovem Vector, o status de maior vilão, e vai contar com a ajuda de três órfãs que adota com a intenção de obter ajuda para roubar um dispositivo que encolherá a Lua, que se encontra em poder de Vector.
Logo no início do filme já nos deparamos com uma cena muito reveladora. Gru vem caminhando e encontra um menino que está triste e chorando por ter derrubado seu sorvete. Gru então faz um bichinho com bexigas e dá ao menino, que logo fica feliz. De imediato Gru espeta e estoura a bexiga e continua sua caminhada demonstrando muito prazer e felicidade.
Quando criança, Gru, era um menino cheio de sonhos, queria ser astronauta. Mas sua mãe o sabotava com comentários sarcásticos e irônicos. Então parece claro que ele se identificou com o menino que derrubou o sorvete: quando ele estava encantado com a bexiga em forma de um animalzinho, Gru espeta e destrói suas ilusões, assim como sua mãe fazia revelando o lado maldoso, sua sombra.
Gru, mesmo adulto ainda esperava reconhecimento da mãe e tentava tornar-se o maior vilão para provar a ela que ele poderia ser alguém importante. Era um sujeito antipático fazendo o que bem lhe aprouvesse. Até mesmo a adoção das três meninas não foi por motivos afetivos e sim um artifício para atingir seu objetivo.
Mas as experiências que foi vivendo com as meninas foi derretendo suas gélidas barreiras lhe permitindo experimentar o afeto por alguém, a empatia e, com isso o malfeitor tornou-se um benfeitor redimindo aspectos sombrios de sua natureza. Os mesmos recursos que detinha para ser alguém malvado e cruel foram utilizados para combater o Vector. E, no final teve o reconhecimento de sua mãe pelo carinho e cuidado que teve para com as meninas.
A análise psicológica permite através do acolhimento e da empatia favorecer que o paciente que tenha desenvolvido uma persona destrutiva possa reencontrar-se com o seu melhor, mesmo que para tal apenas redirecione sua energia ou características para conquistar o melhor de si. E encontre o afeto, o amor por si mesmo e com isso possa desenvolver melhores relações consigo e com os outros.
"Não tão somente sofremos com nossos traumas. Também aprendemos com eles, conforme nossas necessidades".
Alfred Adler
A história do Soluço, um jovem pertencente a uma tribo viking que não apresenta atributos físicos e de personalidade para ser considerado um viking. Ele se esforça para ser reconhecido como viking e consegue capturar a espécie de dragão mais temida – Fúria da Noite, mas ao tentar matá-lo, o que o levaria a ser reconhecido e aclamado, “acovarda-se” e desiste, soltando-o. A partir daí passa a se interessar pelo dragão e deseja estabelecer contato com Banguela, nome que deu ao dragão.
Com suas vivências com o Banguela passa a conhecer e a empatizar com as diversas espécies de dragões, e, com isso vencê-los nas competições enquanto aprendiz de viking. Através dessas experiências acaba por ser visto como um excelente aprendiz e candidato a se tornar um viking, contrariando a expectativa de todos, tendo em vista que Soluço era visto como um incapaz para tal empreitada até mesmo por seu pai.
Quando seu pai, numa competição em que Soluço deveria mostrar suas habilidades para matar dragões, descobre que seu filho tornou-se um amigo e aliado de dragões, rejeita-o e renega-o dizendo que ele não é mais seu filho e nem um viking, além de capturar o Banguela para usá-lo para chegar à ilha dos dragões.
Soluço se vê arrasado. Não possui mais nada. Um pária da sociedade além de sentir que traiu e fracassou com o amigo dragão. Mas sua amiga, Ingrid, o estimula a fazer alguma coisa e não só a ficar com pena de si mesmo. Então, ele treina seus colegas em como lidar com os dragões e forma um pequeno exército para ajudar o pai, o Banguela e a tribo. E no final ele realiza um grande feito e é aclamado por todos, inclusive seu pai que lhe pede desculpas como também ao Banguela.
No decorrer da trama Soluço diz à Ingrid que não pôde matar o dragão, quando teve oportunidade, pois ao olhar para seus olhos se viu naquele olhar: alguém perseguido e não compreendido, e consequentemente não aceito. A empatia permitiu que o afeto, a amizade, a confiança e a cumplicidade surgissem entre ambos.
A história nos revela como Soluço aceitou suas diferenças e que apesar delas poderia fazer a diferença e ser reconhecido pelo que era e não pelo que deveria ser, superando seus traumas gerados pelas críticas e ridicularizações pelas quais passou.
"O indivíduo sempre precisou lutar para não ser sobrepujado pela tribo."
Friedrich Nietzsche
Andrea é uma jovem jornalista recém-formada que conseguiu um emprego como segunda assistente na Runaway Magazine, a mais importante revista de moda de Nova York – embora nada entenda deste ramo. Ela passa a trabalhar como assistente de Miranda, principal executiva da revista, que subjuga e humilha funcionários e até outras personalidades da moda.
Andrea logo nota que trabalhar com Miranda não é tão simples assim e nem mesmo com as colegas, que a humilham da mesma forma com que Miranda as trata. De início Andrea se recusa a adotar os valores e a aparência daquelas que seguem os padrões da moda, pois nunca se importou com isso, e, consequentemente tem que encarar conflitos com todos, mas vai aprendendo com o trabalho e acaba por dominá-lo.
Mas Miranda e sua primeira assistente, Emily, que tenta desde o início sabotar sua tentativa de se dar bem no emprego delegam a Andrea os piores encargos. Entretanto, Andrea vai conquistando a confiança de Miranda e até superando as habilidades e capacidade de Emily. Andrea acaba adotando os valores da moda, ocupando o posto de primeira assistente e trabalhando full time para Miranda. Consequentemente sua transformação acabou criando conflitos e distâncias com seu namorado e amigos.
Contudo Andrea chegou ao sucesso, apesar de criticada, humilhada e de ficar sempre com a impressão de que o que fazia não era suficiente. E neste ponto percebe que se perdeu de seus sonhos, que se afastou dos que a amavam. E dá uma reviravolta e abandona tudo.
Essa história demonstra através das condutas de Miranda e de Emily principalmente como se processa a violência emocional no trabalho que pode conduzir o indivíduo a realizar os sonhos dos outros na tentativa de provar-se e conquistar admiração.
Aqui, Andrea acaba rompendo com tudo em busca do que realmente desejava, mas saiu com força e estrutura para conquistar o que realmente sonhava. Tudo que sofreu não a transformou em vítima, mas a fez alcançar autoestima e autorespeito. Entretanto, há os que conseguem conciliar os dois mundos não precisando abandonar o que conquistou, até mesmo aproveitando o que alcançaram para realizarem os próprios sonhos.
A violência emocional ou psicológica é uma maneira, muitas vezes, cruel de agredir, torturar e traumatizar um indivíduo. E ela ocorre em qualquer lugar ou situação, inúmeras vezes com muitas testemunhas ao redor. Ela nunca é inócua. Na melhor das hipóteses ela traz muito desconforto à vítima, mas normalmente gera traumas que deverão ser trabalhados e elaborados.
Alguns desses traumas são tão profundos que causam uma violação a psique do indivíduo, interferindo nos processos de crescimento e desenvolvimento levando-o a atuar de maneira oposta ao que estava propício a realizar. Nesses casos a ruptura pode ser tão drástica que desorganize a psique levando a comportamentos neuróticos diversos desde uma intensa submissão e autodestrutividade até as condutas de extrema agressividade e destrutividade.
Por outro lado, esses traumas podem servir como elementos de transformação positiva, criativa e que impulsionem o indivíduo ao seu melhor, como nos três casos apresentados nos exemplos cinematográficos. Este tipo de transformação pode acontecer de maneira natural no decorrer da vida do indivíduo, mas muitos desses indivíduos necessitarão do apoio psicológico, de análise para alcançar essa transformação.
GUGGENBÜHL-CRAIG, A. (1978). O ABUSO DO PODER e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. Rio de janeiro: Achiemé.
JOHNSON, R. A., & Ruhl, J. M. (2010). Viver a Vida Não Vivida. Petrópolis: Vozes.
Silveira, N. d. (1988). Jung Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
Whitmont, E. C. (2004). A BUSCA DO SÍMBOLO - Conceitos Básicos de Psicologia Analítica. São Paulo: Cultrix.
[1] Lei nº 8.069/90 atualizado com a Lei nº 12.010 de 2009.
[2] Lei nº 11.340/2006.
[3] Segundo especialistas em psiquiatria e psicologia, a chamada “Síndrome de Estocolmo” só ocorre quando uma pessoa inconscientemente se identifica com o agressor, quer seja assumindo a responsabilidade da agressão a que se submeteu ou imitando a atuação do agressor, por associá-lo à força e ao poder. Atualmente existe até literatura que aborda a Síndrome de Estocolmo Gerencial que é a que ocorre no ambiente institucional.
[4] O processo de individuação é aquele que leva uma pessoa a se transformar nela mesma, inteira e distinta de outras pessoas ou da psicologia coletiva. Segundo Jung a primeira metade da vida era caracterizada pela hominização onde aprendemos a fazer o que esperam de nós, como por exemplo: estudar, trabalhar, casar, etc.; e a segunda, pela individuação, na qual aprendemos ser a nós mesmos r a ir em busca do que realmente queremos.
[5] Psicologia reversa é a psicologia do paradoxo, segundo a qual você tenta obter um resultado positivo através de uma sugestão ou indução negativa ou vice-versa. É utilizada para convencer as pessoas, e encontrada em “manuais” do tipo: “conquiste o sucesso em 5 passos”.
[6] No programa Café Filosófico, TV Cultura, 03/11/2013. Tema: “Os velhos e os novos pecados”.
LASHERAS, Anyara Menezes. A VIOLÊNCIA EMOCIONAL - sutil, devastadora e silenciosa. In: Amorim, Sandra e Neumann, Marcelo Moreira (Org). A VIOLÊNCIA NA CONTEMPORANEIDADE: o olhar da psicologia Junguiana. 1ªed. Curitiba, PR: CRV, 2015. p. 241 a 253