Como tornar-se um bom analista?

 

 

Esta é uma pergunta frequente a um analista, feita tanto por seus pacientes quanto pelos supervisionados. Apesar de a resposta ser simples, ela carrega muita complexidade e profundidade. Vamos a ela!

Além de um curso bem abrangente em Psicologia, que forneça todo o conhecimento necessário, são imprescindíveis a análise pessoal e a supervisão clínica dos casos.

Quando o estudante de Psicologia se submete à sua análise pessoal, ele poderá se conhecer e, dessa forma, perceber se não tem constelado arquétipos que refletiriam negativamente em sua vida profissional. Também perceberá se naquele momento de sua vida está disposto a despender seu tempo e sua energia com os outros. Alguém, por exemplo, constelando o arquétipo do curador e tendo um complexo materno e, por isso, constelando a Grande Mãe, se verá como aquele que tem de curar e proteger. Como consequência, ele será tendencioso com os pacientes frágeis, impotentes e sofredores; sua necessidade de “curar e proteger” o impede de compreender que ele não é a figura central do processo, mas o agente que monitora esse processo e que concorre para um fim comum.

Um outro caso é a mulher cujo objetivo é ter um filho: ela sabe que precisará dispor de todo o seu tempo para atender às necessidades de seu bebê. Então, por vezes, é melhor que ela prolongue os estudos, em vez de passar a clinicar, até que seu bebê precise menos dela.

A análise dos sonhos é um aspecto muito importante da análise junguiana. Segundo ela, todo sonho expressa algo ainda desconhecido, novo para o paciente, e, por meio das associações elaboradas durante a análise, seu sentido pode ser desvendado. Praticando e vivenciando o processo em sua própria análise, o estudante entenderá o quanto é necessário investir mais no estudo das simbologias e mitologias para ser o agente facilitador para seus pacientes - que pouco sabem das correlações simbólicas e não conseguiriam fazer as amplificações sozinhos.

O futuro analista deve conhecer e ser treinado nas quatro funções da consciência (Sentimento/Sensação/Intuição/Pensamento) e reconhecer suas funções desenvolvidas e as não desenvolvidas - nessas últimas é que encontramos os nossos pontos fracos ou cegos que atrapalham nosso trabalho como analistas. Então, estando consciente desses pontos cegos, poder-se-á buscar a supervisão de um colega quando algo suscitar uma dúvida dentro do atendimento.

A pessoa que não tenha tido acesso às profundezas do seu próprio inconsciente dificilmente poderá possuir uma empatia verdadeira com relação ao sofrimento psíquico dos outros. Ela só os tratará de acordo com as regras, sem jamais ser capaz de sentir empatia por eles, e este é um fator importante para que a análise seja bem-sucedida. Cabe aqui dizer o que é empatia: não é sentir o que o outro sente, mas ser capaz de entender o que o outro sente, este é o significado positivo do arquétipo do médico-ferido.

Quando me refiro ao aspecto positivo do arquétipo do médico-ferido quero mostrar que, como em todos os arquétipos, tem-se um lado positivo (iluminado) ou negativo (sombrio), e o aspecto sombrio deste arquétipo é o poder, a arrogância de acreditar que só ele sabe o que é bom para o paciente e levar o paciente a crer nisso também.

Todo analisando (estudante ou paciente) passa por uma análise no sentido de se desagregar de todas as suas características não autênticas, conquistando o seu verdadeiro ser: uma personalidade estruturada, e não mais um joguete de afetos internos e projeções, conflitando com tendências e modismos da sociedade, o que Jung chamou de Individuação.

Portanto, para ser um bom analista, o indivíduo deve se submeter à análise pessoal e à supervisão clínica constante no início da vida profissional.

Maio de 2010.