A Experiência Amorosa 

 

 

            A experiência amorosa é fundamental no desenvolvimento do ser humano como também é uma das que provoca maior sofrimento. A psicologia não pode colocar esta experiência em termos quantitativos, pois é uma vivência muito subjetiva embora se apoie em algumas premissas. A experiência amorosa é uma experiência da alma e, por isso, envolta em mistério.

            A experiência amorosa se baseia no nosso imaginário. São os nossos desejos e necessidades que “inventam”, criam o ser amado. Por isso, a pessoa amada passa a ter uma imensa responsabilidade sobre a nossa vida. Inventa-se um “personagem” e ele deverá corresponder às nossas expectativas. E daí vem os sofrimentos associados ao amor. Vem das frustrações dos nossos desejos. É tolice dizer que se foi seduzido, na verdade o outro evoca a imagem que se constrói sobre ele.

            Alguns estudiosos da psicologia afirmam que o amor se baseia em escolhas não dos potenciais positivos do parceiro e sim dos negativos. Ou seja, são justamente os defeitos do outro que me fariam escolhê-lo. Segundo a psicologia analítica, seria um vínculo entre os aspectos sombrios dos dois parceiros. Por isso, a experiência amorosa teria o poder de trazer à luz, à consciência, aspectos desconhecidos de nós mesmos. Assim, quando sob as fortes emoções que o amor traz  nos revelaríamos a nós mesmos e aos outros. O amor nos desnuda e reflete o pior de nós mesmos. Em nome do amor nos permitimos cometer atrocidades que de outra forma jamais o faríamos. Ele nos torna livres e “loucos”; o amor tudo justifica. Não estou querendo afirmar que em nome do amor também não sejam praticadas ações benéficas, positivas ou nobres. Mas o amor compõe-se das suas duas faces que irrompem quando menos se espera.

            Você já parou para pensar que a experiência amorosa carrega em si alguns ingredientes que, aparentemente, nada tem a ver com o amor? Mas são partes dessa experiência sim, mesmo que não o admitamos. Encontramos na experiência amorosa a ilusão, a traição, o engano, a inveja, o ciúme, o poder e o ódio. Este espectro em tons nada vicejantes mostra alguns dos aspectos que negamos em nós mesmos e sobrevivem, a revelia, em nossa Sombra, vindo a se expressarem na experiência amorosa, que sob este enfoque, nada possui de tão singela e romântica como queremos acreditar.

            Todos sonham em encontrar um amor que os complete, que os realize e realize todos os seus desejos mais profundos, sejam os afetivos, os sexuais e os sociais. Portanto a experiência amorosa propicia uma alteração da nossa visão do mundo e da realidade. E este sonho, este autoengano é que trai o amor e impede que ele seja vivido numa relação. Pois esse amor não liberta, mas prende e anula, e por isso tanto se teme viver uma grande paixão, ao mesmo tempo em que se almeja por ela.

            Quando deparamos com a pessoa em que depositamos nossos afetos, ficamos como que encantados (a mercê de um encanto, de uma porção mágica); tudo gira em torno do alvo de nosso amor: queremos estar sempre juntinhos, pensar igual, ter os mesmos gostos e afinidades e sonha-se com a perpetuação deste estado. Ah, o amor pede a eternidade. Mas essa necessidade de sermos dois em um priva-nos de nossa autonomia, da liberdade, mas, ao mesmo tempo, nos revela o caminho único dentro de nós mesmos, em busca de nós mesmos. E está é a fonte do grande medo que se sente diante do amor: eu estou nas mãos de alguém, minha felicidade e razão de viver não mais me pertencem.

            Mas a experiência amorosa apesar de temida, deveria ser vivida integralmente, pois é através dela que nos conheceríamos realmente pois, à medida que nossos aspectos ocultos viessem à tona fariam com que quebrássemos velhos padrões rígidos que já não nos servem mais.

Os companheiros ou ingredientes do amor:

            A dor do amor, dor que surge do desejo de estar junto, dor da ausência,  dor da espera, dor do temor da perda do objeto amado, dor da perda da própria autonomia, dores que propiciam uma sensação de que se está vivo. É como se ir a uma montanha russa ou assistir um filme de terror ou suspense, situações em que sentimos o coração bater, sentimos a nossa própria respiração, sentimos cólicas abdominais, etc., isto é, sentimos nosso corpo com realmente vivo. No cotidiano, praticamente, nem nos apercebemos que respiramos. Parece tudo tão automático.

            O medo, fiel companheiro do amor. Se não há medo, dificilmente encontraremos o amor. Quando o medo desaparece, o amor já se foi. O amor nos leva a uma viagem ao desconhecido, e esta é a centelha do medo. Perdemos o controle e a orientação, estamos à mercê de um poderoso “combustível” interno que nos faz desafiar regras, e, ao mesmo tempo somos desafiados pela culpa, por isso inventamos algum impedimento. Via de regra, o amor surge junto a uma idéia de algum impedimento. É uma maneira de projetarmos nosso medo e culpa por anteciparmos que infringiremos algumas regras coletivas.

            A separação, outro companheiro do amor, é vivida, primariamente, quando saímos do útero materno. Depois, quando se descobre que a mamãe não nos pertence e temos que dividi-la com papai. Em seguida, devemos enfrentar o mundo (início da vida escolar). E, assim, inúmeras vezes, experimentamos a separação. Com isso, cria-se uma sensação de vazio interno, e busca-se no amor o preenchimento deste. Esta é mais uma das ilusões que o amor nos impõe. Entretanto, é impossível viver sem ela. Quem ama vive o temor e a angustia da separação.

            O erotismo e a sexualidade são elementos muito poderosos na experiência amorosa. São eles que nos levam a transgredir regras e limites, que nos expõe ao outro de maneira intensa. Não é fácil despir-se frente ao outro, pois, neste momento, enfrenta-se o medo da rejeição. São poucas as pessoas que se sentem à vontade com seus próprios corpos; a grande maioria por não estar dentro dos padrões enaltecidos pela mídia, sentem que serão rejeitados, que não despertarão desejo, e, consequentemente, acabam criando barreiras imensas para impedir-se de vivenciar o contato sexual. Gostaria de ressaltar um aspecto que julgo muito importante no tocante a sexualidade: que ela é um impulso natural e instintivo não há como negar, mas ela não pode ser comparada à instintividade e naturalidade da sexualidade animal. A sexualidade humana difere da sexualidade animal pois se utiliza de um ingrediente humano: a capacidade de usar a imaginação que é o que dá o caráter erótico ao encontro sexual humano.

            Outra companheira é a possessividade que vem acompanhada pelo ciúme. O temor da perda reside aqui. Ser abandonado, ter um relacionamento amoroso rompido é uma das maiores fontes de dor humana. Sente-se dilacerado, aviltado, ferido no ponto mais vulnerável, e, na maioria das vezes, essa dor torna-se insuportável por se acreditar que se é responsável pelo término do amor; que se deixou de fazer algo que evitasse o seu fim. E não há nada que possa abrandar essa dor. Nessas horas pensa-se em morrer e, alguns são levados ao suicídio, pois se perdeu um sonho, fracassou-se em manter a outra parte interessada, se está arruinado e desesperançado. A solidão toma conta, e como é difícil conviver consigo mesmo! Mas é justamente esse momento de solidão e desespero que nos coloca em contato com nosso mundo interior, revelando-nos nossos traços mais negativos, e, em contato com eles poderemos integrá-los, amadurecer e buscar nossa totalidade, nossa autenticidade.