Sincronicidade - Tarô e I Ching - como estes métodos podem mudar a sua vida

 

 

 

Carl Gustav Jung estudou a obra alquímica com a intenção de demonstrar o paralelismo entre a Alquimia e os processos psíquicos, sendo que o simbolismo alquímico seria uma expressão do inconsciente coletivo.

Os postulados alquímicos dizem que “o que está em baixo está em cima, e vice-versa, e o que está dentro está fora, e vice-versa”. Com base em seus estudos, Jung, descreveu a sincronicidade como sendo a combinação de eventos internos e externos com relação direta entre si. O evento interno, que pode ser um sonho, uma fantasia, um pressentimento, uma ideia, um pensamento, apresenta relação direta com um evento externo, mas sem denotar causalidade, isto é, não se trata de causa e efeito e sim de simultaneidade. Quem já não passou pela experiência de estar cantarolando uma música e ao ligar o rádio é esta mesma música que está tocando? Parece mágico, não? E é. É a magia do “mundo dos sinais”, ou seja, devemos atentar para o que aquela música significa para a nossa vida naquele instante. Ela está nos trazendo uma mensagem do nosso inconsciente para nós, para a nossa consciência. Não é algo ao acaso, é uma mensagem direta para nós. Algo em nosso mundo interior foi ativado.

Jung tentou através do estudo de mapas astrológicos validar de maneira científica, isto é, através da probabilidade a ocorrência da sincronicidade. Para tanto, analisou os luminares Sol e Lua, e os planetas Marte e Vênus nos mapas de casais, pois estes astros celestes seriam os responsáveis pelo casamento. Mas não ficou totalmente satisfeito, embora os resultados tenham sido positivos.

A sincronicidade leva em consideração o tempo e o espaço como relativos, por isso, poderia servir para antecipar fatos futuros. Mesmo não tendo esse nome, ela já era conhecida por culturas antigas, nas práticas oraculares e eram consideradas manifestações de uma divindade. Talvez, por isso, a sincronicidade fosse vista mais como um fenômeno paranormal do que psicológico.

Os eventos de acontecimentos futuros são chamados de sincronísticos, pois são experimentados como imagens psíquicas no presente, como se o acontecimento objetivo já existisse. Os eventos do momento presente são  chamados de síncronos.

Jung estudou o I Ching mediante seu conceito de sincronicidade. "Essa suposição envolve um certo princípio curioso que denominei sincronicidade, conceito este que formula um ponto de vista diametralmente oposto ao da causalidade. A causalidade enquanto uma verdade meramente estatística não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros, enquanto que, para a sincronicidade, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores." (JUNG in WILHELM, 1987, p. 17)

Foi somente depois de mais de uma década da morte de Jung que a física quântica, através do físico, Fritjof Capra, apresentou conceitos que podem validar os postulados de Jung.

          Mas muitos, ainda, insistem em ver o I Ching ou o Tarô, entre tantos outros, com preconceito. Seriam crendices, tolices místicas, superstições. 

Entretanto, não conseguem vislumbrar o lugar da magia, das crenças, dos milagres na psique humana. Aspectos que são projetados em crenças religiosas, filosofias, seitas, mitos, rituais, contos e histórias e, há muito, muito tempo fazem parte do inconsciente coletivo da humanidade. Estamos falando dos arquétipos que são imagens primordiais residentes no inconsciente coletivo que é a instância psíquica mais profunda e que se manifestam através dos sonhos, mitos, fantasias de maneira simbólica. Não há misticismo nisto.

O I Ching e o Tarô são representações arquetípicas, isto é, cada hexagrama como cada lâmina do Tarô revelam imagens interiores. Conselhos, caminhos, um guia para a jornada interior e para a exterior. Isto por que o que vai ocorrer em nosso mundo exterior já está ocorrendo em nosso mundo interior, construímos nossa jornada exterior a partir das experiências internas. Então, tais instrumentos serviriam como mediadores entre o interno e o externo. Proporcionariam uma maneira diferente de se confrontar uma dificuldade, um problema ou de se olhar um acontecimento. Todo arquétipo é carregado de energia psíquica, e é esta energia que quando constelada se configura num hexagrama ou lâmina.

Vejamos, você se encontra diante de um dilema qualquer e procura, através do I Ching ou do Tarô, uma resposta. Ela virá. Ela irá lhe mostrar o que está envolvido no dilema, quais aspectos internos estão mobilizados e impedindo que você faça a sua escolha. É muito simplista dizer-se que apenas queremos respostas para minimizar nossa responsabilidade na questão ou que temos medo de arriscar, que queremos segurança. Há muito mais que isto oculto dentro de nós.

A maior dificuldade reside no fato de que muitas vezes não conseguimos entender a resposta. Parece que a resposta nada tem a ver com a pergunta. Na verdade, queríamos respostas simples e diretas a questões complexas e com isso não captamos além do desejado. Como também existe a possibilidade de a resposta estar constelando “algo” que não queremos confrontar dentro de nós.

Não há necessidade de ter dons especiais ou paranormais para se consultar esses instrumentos. Não há necessidade de rituais de consagração ou de qualquer espécie. Apenas deve-se estar num ambiente tranquilo, pensando na questão que deseja uma resposta e jogar as moedas ou tirar uma lâmina. Depois estar aberto o suficiente para ‘ligar-se’ a resposta. Mas cabe lembrar que para se usar esses instrumentos devemos estudá-los.

Tais instrumentos, como tantos outros, não são substitutos de uma análise psicológica. Podem ser incorporadas ao processo e depois questionadas, discutidas em análise.

Na Europa e Estados Unidos existem muitos analistas junguianos que fazem uso desses instrumentos na análise, e escreveram livros e artigos falando sobre os arquétipos constelados em cada lâmina do tarô e nos hexagramas do I Ching. Não são místicos e não utilizam com tal finalidade.

Eu mesma já tive a oportunidade de trabalhar com esses instrumentos a partir das experiências de meus clientes. Alguns jogam I Ching, outros Tarô, frente a um dilema, e me trazem o hexagrama-resposta ou a lâmina-resposta para uma amplificação ou mesmo para uma Imaginação Ativa. Os resultados são surpreendentes.

Então, se deixarmos de lado a estreiteza de visão e pensamento, o ceticismo, o preconceito, poderemos utilizar instrumentos “mágicos” para nos orientarmos em nossa jornada, interior e exterior.

Devemos nos lembrar que magia significa: “Conjunto mais ou menos sistemático de saberes, crenças e práticas, relativamente institucionalizados dentro de um grupo social, e que dizem respeito à possibilidade de manipular certas forças impessoais ou indecifráveis que se manifestam na natureza, na sociedade ou nos indivíduos (Dicionário do Aurélio versão multimídia)”. Estas forças impessoais ou indecifráveis podem muito bem ser chamadas de Arquétipos.

 

Referências Bibliográficas:

ANTHONY, Carol. O Guia do I Ching 3ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Nova fronteira, 1990.

GWAIN,Rose. Descobrindo o seu Eu interior através do Tarô. São Paulo: Cultrix, 1996.

JUNG, C. G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

_____. Sincronicidade (O.C. Vol. VIII/3). 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1983.

NICHOLS, Sallie. Jung e o Tarô – uma jornada arquetípica. São Paulo: Cultrix, 1988.

SHARMAN-BURKE, Juliet & GREENE, Liz. O Tarô Mitológico. São Paulo: Edições Siciliano, 1988.

WILHEM, Richard. I Ching – O livro das mutações. São Paulo: Pensamento, 1987.

________________________________________