Suposições ou “eu acho que.....”

 

            Olá!

 

             Vamos começar uma série de textos que tentarão responder aquelas perguntinhas que nos aborrecem no nosso dia-a-dia e que não sabemos a quem perguntar ou quando sabemos ficamos meio que envergonhados, com medo do julgamento. E por falar em julgamento...

 

Assistindo a um filme na TV, uma das falas de um dos personagens me chamou a atenção: “quando não sabemos algo tendemos a preencher esse vazio do conhecimento com suposições”. E percebi que isto, no nosso cotidiano, é o famoso “eu acho que” ou o “achismo” como já se popularizou. Há uma tentativa de preencher o vazio da comunicação com os “eu acho que” que são suposições do que possa estar implícito na comunicação do outro.

 

            O “eu acho que” precede um pensamento de menos valia, de baixa autoestima, de condescendência ou justificativa com o outro. São frases do tipo: “Eu acho que ele não veio, pois não me considera importante”; “Eu acho que ela não ligou, pois está saindo com alguém mais interessante”; “Eu acho que ele está de cara amarrada por algo que fiz”; “Eu acho que ela não é carinhosa pois nunca recebeu carinho”. E assim, caro leitor (a) você poderá lembrar-se de inúmeros exemplos.

 

            O “achismo” cria, na verdade, uma atmosfera propícia para o rebaixamento da autoestima, minando a autoconfiança e gerando uma série de conflitos e confusões, pois a pessoa que “achou que....” fez um pré-julgamento do outro ou dos sentimentos do outro e irá agir mediante tal julgamento.

 

            Quantas e quantas vezes em meu consultório  escuto: “eu acho que meu marido (ou esposa) está me traindo”; ou “eu acho que serei despedido (a)”; ou ainda “eu acho que fulano (a) não vai com a minha cara”, e outras tantas. E, normalmente, tais suposições do “eu acho que.....” estão depondo contra quem as elabora e diz, como também refletem o que aquela pessoa na realidade pensa a seu próprio respeito.

 

            Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço, postulou que todos temos uma Sombra, que seria formada, principalmente, por aquelas vivências e sentimentos que não gostamos em nós mesmos, e, via de regra, ela (a Sombra) se encontra inconsciente. E, por ser inconsciente acabamos projetando-a nos outros. Certo, você não entendeu o que é projetar, não é mesmo? Então vamos lá, vamos pegar a primeira frase que utilizei para demonstrar o “eu acho que”: “Eu acho que ele não veio, pois não me considera importante”. De onde eu tirei a ideia de que ele não me considera importante? Se eu olhar com honestidade para mim mesma, vou perceber que sou eu quem não se acha importante e por isso projeto ou penso que é ele quem não me considera importante. Ele não veio por uma série de razões, inclusive até por não me considerar tão importante, no momento, como eu gostaria de ser. Mas, quem me garante qual a real razão? Se eu não perguntar eu não saberei, ao menos que ele fale posteriormente.

 

            Com isto podemos perceber o quanto a nossa Sombra interfere em nossos relacionamentos sem que nós a identifiquemos. Para tanto, se faz necessário aprender a olhar para dentro de si mesmo, quando se faz um julgamento com relação a uma pessoa ou situação, e analisar criticamente se aquilo não nos pertence.

 

            Não estou querendo dizer que todo “eu acho que....” significa projeção da nossa Sombra, mas que temos fortes indícios para pensarmos nela, ah, isto temos.

 

            Essa história de “eu acho que.....” traz tanto sofrimento, tanta dor emocional desnecessária! Mas as pessoas insistem em usar suposições ao invés dos fatos. Ainda procuram preencher os vazios com suas próprias criações e ilusões do que com os fatos reais. E assim vamos supondo que os outros são mais felizes, mais realizados, mais bonitos, mais tudo e, portanto, somos menos tudo.

 

           Que tal começarmos a preencher os vazios do conhecimento com um simples “não sei o que o (a) levou a fazer isto, mas vou perguntar assim que puder”. Ou, “ele (a) deve ter tido suas razões que agora não me cabe julgar”, ao invés de criarmos um espaço onde além de nos desfavorecer poderemos criar uma boa briga por motivo algum, ou ainda, o que é pior, criarmos situações que comprovem que tínhamos razão. Quer ver uma situação não tão hipotética assim: uma mulher acredita que está sendo traída pelo marido, então ela começa a procurar por razões e indícios para comprovar sua teoria. Começa então a pensar que não é mais tão jovem, tão atraente, que se tornou amarga com os afazeres do dia-a-dia (casa, crianças, trabalho) e que sem dúvida ele encontrou alguém mais disposta e jovial, isto por que ele está muito distante, já há alguns meses. Só que essa mulher não sabe que seu marido está sofrendo grande pressão no trabalho e temendo por sua demissão. Não se trata de outra mulher. Então, a nossa mulher “que acha que o marido a está traindo” começa a criar cenas e brigas quando este se atrasa, quando ele deixa o celular desligado, quando ele diz que agora não pode falar, pois está em uma reunião. Para ela é sempre por que ele está com a “outra”. E com isso, ela está construindo um caminho para que este homem realmente arrume outra mulher, que não seja tão louca (é assim que ele vê a mulher) a ponto de enlouquecê-lo com ciúmes infundados.

 

             Bem, ela acabou por confirmar suas suposições e você, o que é que você pretende: desperdiçar o seu tempo e alegria com os “eu acho que....” ou apenas questionar quando quiser saber alguma coisa e ser mais feliz e autoconfiante?

 

                Já sei, já sei, e se ele (a) der uma resposta evasiva?

 

                Aceite-a num primeiro momento. Na hora certa ele (a) dirá. Só não queira adivinhar!

 

                Até o próximo!

Outubro de 2010.