Traição

 



                    A traição é uma vivência que enfrentamos mais vezes do que supomos. É uma experiência muito dolorosa porque é uma vivência de separação e rejeição. Fala-se muito na traição amorosa, de uma amizade, de um colega no trabalho. Mas existem outras formas de traição que experimentamos, sem mesmo nos apercebemos disso, no nosso cotidiano.

                    Traímos e somos traídos muito mais do que temos consciência. Vamos, então, entender um pouco mais sobre algumas das outras formas de traições das quais não percebemos como traição.

1. A primeira experiência com a traição, a chamada traição primária, é a que se dá quando nascemos. Nossos pais nos “imaginam” antes de nascermos e assim traem a nossa essência pois nos impedem de sermos quem realmente somos. Traímos o que somos. Rejeitados pelo que somos.

2. Tem-se, também, a traição com relação à própria família. Temos que nos separar dela. Temos que ganhar o mundo, viver outros relacionamentos afetivos e amorosos. Mas há um impedimento velado, oculto, que nos impede de sair. Com isso, entramos em relacionamentos desgastantes e frustrantes ou que nos ajudam a “fugir” dessa opressão. Mas certamente, cairemos numa armadilha pois o que não enfrentamos com a família de origem reaparecerá no relacionamento ou na família que construímos.

3. Então, em função do segundo tipo de traição, vem a traição relativa ao casal. Quando conhecemos uma pessoa vamos montando uma imagem dela. Criamos esta imagem com base em nossas expectativas e não percebemos que a pessoa foi “montada em nossa mente”, ela é apenas uma ilusão. E quando a realidade vai desmantelando a ilusão, descobre-se que se está com uma pessoa estranha (estranha à nossa fantasia). E se pensa que se foi traído, que foi o outro quem nos enganou. O outro também se sente traído pois se espera dele coisas que ele não possui.

4. O silêncio é uma forma muito usual de traição. É uma arma poderosa contra o outro pois nega a própria relação. Relacionar-se implica em diálogo. O silêncio nega a existência do outro. Diante do silêncio, uma pessoa se sente punida e, sem saber o por quê. Sente-se rejeitada e apartada do relacionamento.

5. Traição contra si mesmo. Não respeitar seus valores, suas crenças, suas potencialidades e passar a viver apenas o que espera a coletividade. Atrasando-se ou não cumprindo compromissos, revela o trair e o trair-se.

6. Traição do corpo. Nega-se o próprio corpo transformando-o em algo que a mídia explora, ou comendo demais, ou comendo de menos, ou adoecendo. Isso nos revela o quanto dissociamos corpo e mente, que são partes de um mesmo ser. Se nossa vida emocional não vai bem ela tende a se manifestar no corpo. É uma maneira que o nosso psiquismo tem para alertar que algo vai mal e que nada estamos fazendo. O inverso também ocorre sendo que podemos sonhar que algo em nosso corpo não vai bem. O não gostar do próprio corpo já é uma traição, pois implica em rejeição e separação.

                    Através de uma análise sincera de si mesmo, de uma análise dos motivos psicológicos que nos levam a trair e sermos traídos e que poderemos evitar os excessos e abusos da traição.

Este texto teve embasamento no meu trabalho clínico e no livro Amar Trair de Aldo Carotenuto, da Editora Paulus.