Alice no País das Maravilhas

                                     

 

 

                    Mesclando dois dos três contos escritos por Lewis Carroll sobre Alice – “Alice no País das Maravilhas” e “Alice no País do Espelho”, a versão de Tim Burton (2009) apresenta a jornada de uma jovem pelo seu inconsciente, em busca da resposta autêntica para as questões “quem sou eu?”, “quero ou não me casar?” e “por que fazê-lo ou não?”.

 

                    A personagem Alice vivencia situações nas quais deve resolver enigmas para atravessar o portal que a levará ao encontro de si mesma.

 

                    Após ser pedida em casamento, diz que precisa pensar, pois tudo está ocorrendo muito rápido. É quando cai no buraco negro, tal qual em seus pesadelos de infância, mergulhando no seu próprio inconsciente, onde se depara com inúmeros objetos e personagens pictóricos, simbólicos.

 

                    Uma voz feminina (seu ego) faz críticas (ela deveria se lembrar de que já esteve aqui), enquanto uma voz masculina (Animus) é mais animadora. Isso porque Alice teve um relacionamento positivo com a figura paterna, que lhe deu afeto e um sentido de direção (“a única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”). Logo, o lado crítico-negativo do Animus não aparece.

 

                    Como em qualquer jornada do herói, Alice é auxiliada por seres mágicos para realizar sua missão: pegar a espada (símbolo de direção, equilíbrio e determinação) e matar o monstro (o que se teme). Ela irá se encontrar com:

 

        • o Coelho Apressado (ansiedade) e o Coelho Atrasado (procrastinação) - os gêmeos complementares;

        • a ratinha, seu ego pequenino, mas forte e guerreiro;

        • Absolen, a lagarta que é o símbolo da transformação;

        • o gato sorridente, uma ajuda “quase” invisível quando tudo parece difícil;

        • e o Chapeleiro Maluco, seu sinalizador durante a jornada, a experiência já adquirida que, no passado, fracassou por inexperiência e arrogância e, agora, pode ser aproveitada (aprende-se através dos erros).

 

                    No mundo subterrâneo, existem a Rainha Vermelha (irada, racional, ardilosa e teimosa) e a Rainha Branca (gentil, sorridente e meiga, mas sedutora) - ambas com poderes para cativar seus simpatizantes, seja pelo medo ou pela sedução. E esses são dois aspectos do feminino que devem ser integrados, e não excluídos ou sacrificados. Tanto que ao matar o monstro, Alice usa a frase da Rainha Vermelha, “Corte a cabeça” (sem cabeça não há direção ou determinação).

 

                    Alice sai do submundo, vitoriosa em sua jornada e plenamente consciente de quem é, do que é capaz e do que fará. Descobriu que antes de pertencer a alguém deveria pertencer a si mesma e se realizar. Então, ela diz ao pretendente a marido que não o aceita por ele ter problemas estomacais (muito melindroso); diz à irmã que a vida é dela (Alice) e decidirá o que fazer com ela, não permitindo que lhe digam o que fazer; diz ao cunhado que ficará de olho nele, pois descobre que as pessoas mentem e enganam pela própria conveniência; diz à tia que não existe príncipe encantado e que precisa conversar com alguém sobre essas ilusões (buscar um analista); e diz à mãe para não se preocupar, visto que encontrará algo útil para fazer na vida.

 

                    E, finalmente, ela retoma os negócios do pai, inspirada pelo caráter mais audacioso que ele lhe transmitiu, confiante e livre para escolher seus próprios caminhos.

Fevereiro de 2011.