As Filhas do Pai

 

             Este pequeno artigo fala sobre aquelas mulheres denominadas “filhas do pai” (como no mito de Atená que nasceu da cabeça de Zeus e ignora sua mãe – Métis). Além de serem aquelas que idolatram o pai, são as “queridinhas” deles; as chamadas “filhinhas do papai”.

            Em geral, são mulheres que buscam e atingem sucesso profissional e econômico, vivem como que harmoniosamente com o movimento patriarcal. Entretanto, logo se deparam com um vazio em seu interior, com a inexpressividade e a esterilidade do viver os seus atributos femininos. Tornam-se, por tamanha idolatria, seu próprio pai.

           Portanto, sua meta, seu objetivo, embora inconsciente, seja tornarem-se um orgulho para ele. Por isso, rejeitam os valores femininos, sua criatividade, corporeidade, espiritualidade e o relacionar-se “real e afetivamente” com alguém. E, toda sua feminilidade será deformada pelo que ela acredita ser o feminino ditado por seu pai.

            As “filhas do pai” podem ter características diferentes em razão do padrão paterno e materno também serem diferentes. Existe uma intensa complexidade embora se tenha uma linha mestra, já referida acima, do que seja uma “filha do pai”.

            Então, temos, por exemplo, o pai bom, o pai ausente, o pai que mima, o pai passivo, o pai sedutor, o pai dominador e o pai idealizado. E temos a mãe depressiva, a mãe invejosa e a mãe passiva. Através de determinada parelha entre esses tipos de pai e mãe, é que teremos as diferentes maneiras de uma “filha do pai” atuar no mundo. Por exemplo, a mãe invejosa da intensa ligação entre sua filha e o pai demonstrará comportamentos com intensa carga emocional (ciúmes, raiva, brigas) e se a parelha se faz através de um pai bom, a filha tenderá a ver a mãe como um péssimo exemplo do feminino e como alguém egoísta e até insana.

            Basicamente, as “filhas do pai” dão preferência aos valores masculinos em detrimento aos femininos. Por isso, tornam-se o “braço direito” de um homem. Não admitem ficar doentes, portanto, desrespeitam seus limites. Assumem mais responsabilidades do que podem realizar a bom tempo. Apresentam problemas na esfera afetiva pois normalmente identificam-se com aspectos que não os afetivos – com os profissionais ou estilo de vida. Um dos traços mais marcantes das “filhas do pai” é ignorar ou rejeitar a mãe, e este, na verdade, é o primeiro passo na negação da sua feminilidade -- é a rejeição a si mesma -- . depois vem a rejeição dos próprios sentimentos como raiva, dor, solidão, pois seu pai jamais a estimulou a sentir; exatamente, por não saber lidar com seus próprios sentimentos como poderia lidar com os da filha? Por isso as “filhas do pai” preenchem suas vidas com o trabalho e assim negam seus sentimentos.

            As “filhas do pai” podem ser tanto do tipo “boazinha”, como do tipo “mazinha”. A “boazinha” não quebra regras, é perfeccionista, com bom desempenho escolar, mas teme tanto ser destaque como ser criticada. Já a “mazinha” foi estimulada por seu pai a se rebelar, a mostrar o que pensa, a não levar desaforo para casa, mas jamais contra ele.

            Resumindo, a “filha do pai” faz tudo para agradar seu pai e a rejeitar a mãe. Muitas vezes, se alia ao pai contra a mãe. Tudo para receber a atenção do seu ídolo. Mas para que ela atinja seu caminho pessoal interno, assuma sua real identidade como pessoa, terá que humanizar a figura paterna, isto é, retirar dele a projeção de um ser divino e heróico. Para tanto, deverá vivenciar o trajeto da heroína, sair do aconchego paterno, enfrentar o mundo externo e interno e retornar plena de si mesma. Então, depois dessa jornada poderá encontrar relacionamentos gratificantes, sua feminilidade estará restaurada e, sem dúvida, o que antes ela imaginava como fraqueza ou bobagem, poderá ser usado para que atinja uma vida mais plena e feliz