As Deusas Gregas Menos Conhecidas - O caminho de um relacionamento amoroso

 

Os arquétipos evocam e moldam a energia psíquica à sua semelhança. Talvez, um dos maiores erros humanos seja pensar que possui o livre-arbítrio para fazer ou pensar o que quer. Na verdade, se está à mercê dos poderes divinos dos deuses ou, em linguagem psicológica, dos arquétipos. E, caso o ego não esteja fortalecido e capaz de auto observar-se, fatalmente, sucumbirá ao poder do arquétipo.

Por isso, vamos abordar alguns arquétipos representados pelas chamadas deusas gregas menos conhecidas, como as denominou Sanford no livro “Destino, Amor e Êxtase”.

 

Essas deusas são aquelas anteriores a era patriarcal, olímpica, e, portanto, matriarcal, que foram renegadas porque as “forças da vida” que elas representavam também o foram com o advento da era patriarcal. Elas estão presentes nos relacionamentos humanos, principalmente nos de ordem afetiva. É através delas que temos o desenrolar de um relacionamento afetivo emocional. Atentando para suas características e qualidades poderemos repensar nossos relacionamentos, evocando as energias das deusas necessárias a uma boa evolução ou, minimizando as energias menos favoráveis.

 

1.      O Cortejo de Afrodite

 

Afrodite representa a deusa do amor erótico que é denominado eros. Lembrando

que ágape é o amor incondicional e stroge o amor à família, a devoção e afeição em geral. Afrodite possuía as qualidades Sagrada e Profana, na primeira impulsionava ao amor, na segunda, impulsionava a sexualidade permissiva.

As primeiras a saudarem Afrodite quando ela nasceu, foram as três Horas e a deusa Peito. Peito era a deusa da delicada persuasão e representa as palavras que seduzem e encantam a mulher (visto que as mulheres são mais auditivas e os homens mais visuais).

Em seguida, apareceram as Cárites, que são as responsáveis pelo amadurecimento do amor, pelos adornos e cuidados para “se chamar à atenção” de alguém. As Cárites são três: Agléia, que significa esplendida beleza; Eufrosina, que significa pensamentos alegres, boa disposição, e Talia, que representa abundância, fartura.

Também atuava junto a Afrodite a Deusa Aidos, que era a deusa da modéstia, do autorrespeito e da vergonha.

 

2.      Ananke e os Daimones

 

Ananke é a deusa da Necessidade, no sentido de se precisar de alguma coisa. Representa as necessidades externas e internas, as de relacionamento ou de afinidade, da criatividade e da cura. Pode ser percebida nos vícios, nos transtornos obsessivo-compulsivos (TOC).

Daimones são espíritos puros que habitam a terra; benévolos e “guardiões dos mortais”. Do grego, deimon; genius para os romanos. Mas, também, uma maneira de vivenciar a necessidade segundo nos seja mais apropriada.

A palavra terapia vem do grego, de thepapeuo, que significa curar e “prestar serviço aos deuses”.

 

3.      Têmis e suas filhas

 

Têmis é a deusa do que é Correto, no sentido da correção e não da moral, dos limites e fronteiras. É a ordem correta, a ordem que prevalece na natureza, que regula a vida humana e até os relacionamentos; limitava a boa sorte e felicidade dos mortais.É Têmis quem impede a Sombra de se introduzir nas relações de amizade pois, estaríamos ultrapassando o justo limite da relação. Ela faz o mesmo quando existe um inimigo entre dois amigos, ou seja, quando uma das pessoas amigas tem amizade com uma outra que é inimiga de seu amigo. Têmis também limita o ciúme.

Os relacionamentos amorosos embora suportem melhor a invasão da Sombra e do ciúme, desde que esse último seja na esfera afetiva e não mundana, também são regulados por Têmis.

Têmis também está presente nos relacionamentos profissionais, como por exemplo, na relação terapeuta-cliente, onde deve ser preservado o respeito mútuo e contidas as intensas emoções pessoais.

Ela aparece na ordem social: no Código Penal, de Trânsito, da Receita Federal, e, principalmente, na Natureza, na ordem natural, tais como na cadeia alimentar e controle populacionaTêmis tinha três filhas: Dike ou Diquê, que representa o costume, a lei e a justiça; Eunomia, representando a boa ordem, e, Eirene, a paz.

Têmis tinha, ainda, outra acompanhante que, junto com Dike aplicava a justiça, que era Nêmesis, que representa a punição justa e a vingança.

Nos vícios, no consumismo, nos quadros maníaco-depressivos e na sexualidade desenfreada  encontramos exemplos claros de desrespeito a Têmis.

 

4.      A Deusa Ate

 

A Deusa Ate é a responsável pela insensatez, pela ruína, pelo pecado, pela discórdia e pela confusão por bobagens. Faz com que se perca o poder do discernimento moral, do julgamento e da ação correta. Quem se via sob a influência de Ate, apelava para as três Lites (preces). Ate compelia nações ou pessoas a agirem sob a inclinação de ate (insensatez, discórdia), sucumbindo ao pecado de hybris (soberba, orgulho).

 

5.      As Moiras

 

Fala-se muito sobre as “escolhas” que as pessoas fazem; se coisas boas ou ruins acontecem, são por suas escolhas; que todos construímos e moldamos nossas vidas e destino através de nossas escolhas. Entretanto, existem inúmeros fatos que não corroboram essas afirmativas. Desde o nascimento até a morte – os dois principais pontos de não escolha – vivenciamos situações que independem de nossa vontade, tais como: poder ter ou não filhos, que estes nasçam sadios, sofrer ou não de determinadas doenças de ordem genética, etc. E, isso é o que chamamos destino ou fatalidade, que era representado na Grécia Antiga pelas três deusas Moiras (ou Parcas).

As três Moiras são: Cloto, a fiandeira, representa a que tece a teia da vida; Átropos, a que cortava o fio da vida; e, Láchesis, a que distribui a parte que cabe a cada alma.

Existia, ainda, na Grécia Antiga, uma outra fatalidade, a úpermoira, que era uma sina que a pessoa atraía para si em função do pecado, ou seja, era uma conseqüência do pecado. E úpermoira podia ser evitada.

Então, pode-se dizer que a fatalidade ou sina determinada pelas Moiras é uma predestinação que só pode ser enfrentada, mas não evitada. Não é determinada por boas ou más ações do sujeito ou de seus pais; não está ligada a uma vida com ou sem pecado. Já a úpermoira, sim.

Enfrentar a sina exige e desenvolve o caráter (do grego, xaracter que significa ser alguém definido), ou seja, determinados princípios a que se permanece fiel independente de confrontações. E este é o caminho para a individuação, o caminho para realizarmo-nos como indivíduos únicos.

Sendo a fatalidade inevitável, o mesmo não se pode dizer do destino pois este pode ou não ser cumprido, sendo determinado pela maneira que enfrentamos as fatalidades e fazemos nossas escolhas (caráter).

 

6.      As Erínias (ou Fúrias)

 

As Erínias viviam no Tártaros, que era a parte do subterrâneo reservado aos mortais que eram levados para lá como forma de castigo pois haviam cometido alguma grave ofensa contra os deuses. Elas carregavam tochas, serpentes e chicotes, e representavam os espíritos da vingança feminina.

As três Erínias são: Aleto, a incessante, a implacável; Tisífone, a inexorável; e, Megaira, a raiva invejosa. Elas defendiam os valores femininos primordiais: a fidelidade ao amor e os direitos e a santidade da família, especialmente das mães. E, quando estes eram violados, perseguiam furiosamente suas vítimas.

As Erínias também eram chamadas por Eunêmides, com a intenção de não pronunciar seus verdadeiros nomes. Mas, como Eunêmides, eram responsáveis pela abundância e bênçãos quando a natureza era honrada, quando a ordem natural era respeitada.

O inconsciente quando negligenciado pode voltar-se contra o consciente, tornando-o destrutivo, isto é, levando o indivíduo a provocar acidentes ou doenças para si mesmo. Este é o efeito das Erínias na psique humana.

 

7. Dionísio: o mais estranho dos Deuses

 

Dionísio é uma incógnita, nada é conclusivo no que diz respeito a ele. É o deus que concedeu o vinho e o sono aos mortais. Ele era magnífico em se transformar, modificava-se com disfarces teriomórficos (touro, serpente, leão, bode) para validar seus mandatos. Associado a turbulência, ao abandono, a liberação das repressões da vida, mas não devasso ou libertino, características próprias de Baco, sua versão romana. A liberdade atribuída a Dionísio era de se viver a vida, desfrutando do que ela tinha de melhor, mas em coerência com a essência interior – ele habita o inconsciente e clama por se libertar. Foi por essa razão que ele era seguido incessantemente pelas mulheres. Havia algo nele do feminino, muitos o achavam parecido com as mulheres. Há uma androgenia em Dionísio que fazia com que fosse adorado por ambos os sexos. Ele era o deus do falo e não apenas por sua sexualidade, mas por simbolizar o poder masculino penetrante capaz de fertilizar o feminino.

Era um deus sensível às dores e angústias dos mortais e o vinho veio para curar a alma através da liberação e da animação da mesma.

Dionísio era, decididamente, uma afronta aos valores patriarcais.

A vivência da sexualidade despertada nas mulheres por Dionísio não era profana, pois ele acreditava e sabia que as mulheres eram fiéis ao amor e, portanto, à sua própria natureza. Elas não sairiam por aí se entregando a qualquer um.

Dionísio é associado a “loucura” que não tem qualquer relação com a insanidade, mas ao poder criativo que, também, pode se destrutivo, que seria a invasão de uma divindade, ou seja, a energia desse deus emerge das camadas mais profundas do inconsciente e que independe da vontade do ego.

Dionísio ou, psicologicamente falando, a experiência dionísica conduz a uma intensificação da consciência e por isso é parte fundamental no processo de individuação.

“Dionísio chega como o libertador da alma porque ele liberta o que foi reprimido e ocupa a alma vazia com seu poder. O fato de especialmente as mulheres serem suas devotas sugere que o elemento aprisionado era, e ainda é, o feminino.” (Sanford, 1999, p. 146).

Entretanto, isso não é comparável ao movimento feminista, pois não rejeita ou nega o logos (masculino) ou hiper-valoriza o eros (feminino), a liberação dionísica visa a união desses elementos que assim libertariam a alma. Não haveria, assim, uma hiper-valorização do ego.

 

Como usar a energias dessas deusas

 

Através da compreensão desses arquétipos poderemos observar e desenvolver aspectos primordiais na esfera dos relacionamentos. Desenvolvendo-se as características positivas dos arquétipos que estariam menos desenvolvidos ou menos atuantes em nós, poderíamos encaminhar os relacionamentos de maneira mais harmoniosa e real.

Como já mencionado no início deste trabalho, os aspectos simbolizados pelas chamadas deusas menos conhecidas foram desprezados, negados pelo patriarcado. E, embora, de teor feminino não pertencem apenas às mulheres, mas a parte feminina (anima) do homem.

Enfim, vamos embarcar nessa viagem que nos conduz, principalmente, ao relacionamento amoroso.

Primeiramente, somos tocados pelos poderes de Afrodite, através de eros.  Então, a deusa Peito influenciará o homem a nos dizer coisas que nos seduzem e encantam. Segue-se a ação das deusas Cárites que nos farão cuidarmo-nos e adornarmo-nos para atrair a atenção, além de fazerem com que sintamos aquela alegria de esperar pelo encontro. Logo, virá Aidos que nos conduzirá a atitudes de auto-respeito e vergonha, não permitindo que violentemos nossos valores pessoais, pois Ananke irá se manifestar através de nossas necessidades afetivas e corporais de ter um relacionamento amoroso, de acordo com nosso daimon (de maneira apropriada para nós) . Mas deveremos nos acautelar  com Ananke para não ficarmos obcecadas pelo objeto de nossa energia afetiva. A deusa Têmis e suas filhas estarão “vigiando”  todo o processo para que permaneçamos corretas aos valores naturais, impedindo que a nossa Sombra seja projetada e que desafiemos  os costumes e leis que regem os relacionamentos (p. ex.: a traição), limitando o ciúme no nível da normalidade.

Devemos, também, estar atentas com relação a Ate que promove a discórdia, a confusão através da auto-ilusão e arrogância.

Estaremos à mercê do Destino-Fatalidade (Moiras) que colocará alguém em nossa vida, mas deveremos estar atentas no sentido da úpermoira (destino) para que não criemos situações das quais nos arrependeremos, aqui reside a nossa chance de fazermos as boas escolhas.

Mas se nos virmos traídas, as Erínias se encarregarão de nos deixar iradas e buscar implacavelmente por vingança.

E, através de Dionísio, libertaremos nossa alma e viveremos o amor sem o controle do ego; não o submeteremos a racionalidade e nem a mediocridade, mas o elevaremos acima do nível mundano.

           

Referência Bibliográfica:

SANFORD, John A. Destino, Amor e Êxtase – a sabedoria das deusas menos conhecidas. São Paulo: Paulus, 1999, 157p.